Carta de Julieta

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Eu sempre imaginei que o amor iria aparecer em minha vida em forma de um cavalheiro em um cavalo branco. Eu sou aquele tipo de pessoa que chora em filmes de romance enquanto toma sorvete. Eu idealizei tanto o amor, imaginava as preces mais puras sendo ditas a mim, os votos mais fiéis, as aventuras mais calorosas. E, quando cresci, me deparei com a realidade, onde o amor não é o centro de tudo; na verdade, nem é a coisa mais importante em ser adulto.

Eu tive que me contentar com uma realidade onde o amor não existe pra mim, tive que aprender a gostar da minha própria companhia e, ao mesmo tempo, não romantizar a solidão. Por um tempo, eu acreditei que não merecia o amor, por isso ele não vinha; depois, tive uma queda maior ainda ao saber que eu mereço, sim, ser amado, e isso é pior ainda, pois é mais fácil acreditar que não merece ser amado do que conviver com a ideia de que merece o amor, mas não o tem. Eu olhei para o espelho e gritei: Já que sou, então o jeito é ser.

Alguns vêm para a terra para serem amados, outros vêm para amar. Aquele amor genuíno que não precisa de troca. É doce acreditar que é maravilhoso amar o mundo e as pessoas, mas o desafio mais difícil é amar a si mesmo. Procuramos significados em todas as partes, lemos poesias e nomeamos o que sentimos. Mas o verdadeiro sentimento é aquele que não conseguimos nomear; a única forma é experienciá-lo.

Eu sou mais forte que eu, pois enfrento, cotidianamente, o espectro da ternura. De fato, em toda minha vida, o cavalheiro não veio me resgatar da torre, pois, quando ele chegou, eu já tinha saído de lá. Ele até tentou me alcançar para se declarar, mas eu estou tão determinado que nem percebi que, sozinho, lutei todo esse tempo e não sobrou nenhum dragão para ser derrotado, pois eu mesmo o matei. Gosto de pensar que tanto meu futuro quanto o momento presente são importantes. As pessoas realmente nunca retribuíram o que eu senti, mas eu senti mesmo assim. Se eu morresse hoje, ninguém nunca teria me amado romanticamente, mas eu terei amado muitos. Alguns amores não são canônicos, mas gosto de pensar que eles existiram mesmo assim e que, talvez, em outra vida, eu possa encontrá-los.

Quem precisa de um príncipe, quando se já é rei? Meu processo nunca foi encontrar o amor, mas sim saber qual é o papel dele em minha vida. É sobre todos os obstáculos que desviei até chegar a essa conclusão. Sou um admirador do romance, sou o poeta que escreve as declarações, mesmo que ninguém nunca as tenha lido para mim.

Mas ainda gosto de imaginar que um dia encontrarei o meu príncipe, em uma noite de lua cheia com muitas estrelas, ou em um dia chuvoso com muitos relâmpagos, ou talvez em um fim de tarde ensolarado. Ele se ajoelhará, com sua voz doce e aveludada, e irá performar:

Romeu, você não está mais sozinho, agora eu estarei com você em cada passo, apenas me diga sim e irei curar suas feridas, guiarei os seus passos, lerei suas poesias, te beijarei em frente à árvore dos namorados, te levarei até Veneza, escreveremos uma carta para as secretárias de Julieta e irei proclamar uma declaração de amor em sua sacada, velejaremos pelo rio Sena, nos beijaremos na Torre Eiffel, subiremos o Cristo Redentor e gritarei o seu nome, pedirei sua mão no Madame Brasserie, colocarei seus livros no Museu do Louvre ao lado da Mona Lisa, enfrentarei um tsunami e ficarei para sempre contigo no paraíso.

Não tem nada de errado em continuar sonhando, o que te peço é que nunca perca a esperança. Acredite naquilo que o seu coração diz e não no que o mundo quer que você acredite. 

Acredite no amor.
Ele ainda irá vencer o ódio.

Com amor, Julieta.

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