Passado Presente Futuro
Essa é a centésima vez que escrevo sobre você.
E se? E se tudo fosse diferente? Eu sabia que você assombraria todos os meus “e se”. Foi centenas de toques nunca sentidos, foi centenas de histórias criadas em minha cabeça. Eternizei seu nome em um livro e te transformei no mais gentil cavalheiro, você enfrentou tsunamis, se tornou um Deus e cruzamos nossas espadas.
Você nunca foi meu e me apaixonei pelo que inventei de você. Mas ainda me lembro do seu cabelo sobre sua testa, me lembro da noite em que te conheci, me lembro de todas as poucas palavras que trocamos. Você tentou me enganar para ganhar mais cookies, eu fingi acreditar para que você ganhasse mais. Ganhamos aquele jogo e eu escrevi sobre isso e centenas de pessoas leram.
Você será para sempre meu Romeu, o coração do grupo, o grande Paladino. Você demorou muito, estava aprimorando seus poderes, mas me salvou daquela torre. Você andou por aquela ponte de cordas bambas, galopou em seu alazão e caminhou pelo vale de espinhos, sem sofrer nenhum arranhão. Seu cabelo amarelo voou pelos ares enquanto sua armadura de ferro iluminava o céu. Como um príncipe encantado, você me resgatou.
E se fosse verdade? E se não tivesse retirado todas essas aventuras de um livro que eu mesmo escrevi? Eu te dei a vida em um mundo criado pelo meu poder literário. Naquele mundo, te moldei pelas mais fiéis e boas características. E se meus desejos se tornassem realidade: teria sido você. Não posso ser culpado, como o pecado. Meu único pecado foi te amar.
Me abdiquei de meus dentes e de tudo que vivi até hoje, para viver eternamente com você. Eu renunciaria a tudo e a todos para sentir o seu amor. E se tudo fosse possível e se eu não fosse invisível. E se eu não fosse diferente? Eu seria o ganhador e levaria tudo. Eu te abraçaria, colocaria meu ouvido em seu peito e escutaria seu coração bater. Dessa forma, eu saberia que é real. Eu te beijaria e depois iria beliscar meu braço, só para conferir.
Se você nunca sangrar, você nunca irá crescer. Eu sangrei, sangrei por nós dois. Eu cresci, deixei o cabelo crescer, eu entendi como meu cérebro funciona. Eu aprendi, descobri por que esse padrão se repete, agora eu sei porque te amei. Mesmo assim, o sentimento ainda existe e existirá para sempre, toda vez que eu ver uma foto sua, toda vez que escutar Mary on a Cross. Toda vez que o azul encontra o amarelo no Oeste.
Naveguei por horas no oceano só para te encontrar. Nossas famílias sempre foram contra o nosso amor. Mesmo assim, continuo remando para o seu coração. A diferença sempre nos atraiu, não era ódio, sempre foi amor. Eu me perdi em seus olhos e me encontrei em sua boca.
Meu barco encosta em seu horizonte. Eu desço com minha postura impecável, retiro minha espada e corto os arbustos do caminho. Vou correndo até o castelo e me deparo com seu corpo já sem vida no chão. A dor invade meu coração e destrói tudo que ainda tinha lá dentro. Eu decido que, sem você, a vida não tem sentido. Pego aquele veneno que preparei para minha sogra e o tomo pela metade. Por fim, te dou um último beijo. Como um passe de mágica, você desperta e se assusta com meu corpo sem vida. Sem esperanças de ser feliz novamente, você toma a outra metade e o nosso veneno foi o nosso amor.
Não somos Romeu e Julieta, mas você é o meu Romeu. Éramos algo, você não acha? Mesmo se fôssemos como uma pequena folha comparada ao jardim do amor, ainda somos alguma coisa. Até mesmo uma pequena divisão de um átomo pode gerar uma grande explosão. Existem tantas versões de você que poderia criar um universo inteiro só seu, poderia usar uma versão diferente para cada dia da semana. Um loiro para cada dia ainda é pouco. Por isso, desejo todo dia, quando eu morrer, eu quero subir ao paraíso contigo. Prometa para mim, você será jovem e bonito para sempre? Pois minha paixão é pela sua beleza, o que farei quando ela acabar?
E se eu tivesse aceitado aquela proposta da velha bruxa? Eu poderia viajar por meio de todas as nossas possibilidades, eu navegaria no oceano imenso de nosso multiverso. São tantas versões que posso viver no mundo que criei. Eu me afasto de tudo que me define, procuro as respostas que sempre sonhei em ter. Eu aperto a mão dela e fecho esse acordo. Um portal de fogo se abre. Antes de entrar, a bruxa me alerta: Tudo na vida tem um preço, está disposto a pagar por isso? Eu ignoro a velha, eu preciso ser amado por você.
A primeira realidade é incrível! Eu sou um grande violinista, você é o maestro. Estamos na década de 60 e nosso amor é proibido. Como sempre, você é intocável, do tipo que nunca olha nos olhos das pessoas, passa e não cumprimenta, seu jeito esnobe é o que mais me intriga. Parece que quando é mais difícil, quando é impossível, é como desafio e eu sou movido a isso. Seu andar te entrega, ninguém entende mais de moda que você, seus sapatos são de luxo e isso me encanta. Me aproximo com cautela, antes de ouvir sua voz, já imagino nossa aventura atroz. Analiso seu corpo, sua personalidade, você é o experimento fugaz das melodias que solto ao vento dos sussurros uivantes. Meus lábios tocaram os seus, mas tudo se passou apenas no palco da minha mente, onde a imaginação vestiu-se de verdade e enganou o meu próprio coração. Meu corpo se transporta para outra dimensão, onde pode ser possível.
O portal se abre novamente para um universo, onde Liam e Jake existiam antes de mim. Nesse mundo, o amor não era invenção nem delírio, ele acontecia entre ruínas, sirenes e decisões impossíveis. Jake segurava minha mão como quem segura o fim do mundo sem tremer, e Liam… Liam era luz demais para caber em si. Quando a cidade caiu, ele ficou. Quando todos fugiram, ele escolheu. Seu corpo virou escudo, seu coração virou salvação, e o amor pagou o preço mais alto. Jake sobreviveu, mas nunca saiu inteiro. Eu observei tudo de longe, entendendo que até os universos onde o amor vence exigem sacrifícios. Talvez o destino apenas mude de roupa: aqui eu morri por amar sozinho; lá, Liam morreu para que outros pudessem continuar. E ainda assim, nesse plano, te amar foi letal. Minha mente encenou o ato, mas o mundo jamais abriu as cortinas.
Salto do portal novamente, mesmo cansado ainda busco propósito nessa missão. Mesmo que o caminho não termine, mesmo que essa busca me leve à ruína, não desistirei do meu propósito. Mesmo que o mundo acabe, mesmo que minha mente falhe, mesmo que não faça sentido, eu ainda irei te amar. Tem que existir outra versão, esse não pode ser o fim, em algum universo eu tenho que te encontrar. Envio uma carta através do vento e isso não será em vão. Cansado de procurar, resolvi criar minha própria versão. Dentro da minha própria mente. Arrisco tudo e vivo dentro da minha imaginação, crio o hex que nos sustenta e tudo é perfeito. Tudo sob meu controle, como eu sempre sonhei. A anomalia é o nosso amor, a única loucura é não tentar te encontrar. Dentro de mim, nasce algo extraordinário, um universo se cria, minha mente se expande e tudo parece como um filme.
E se, dessa vez, fosse real? E se no centro do mundo que criei, você parasse diante de mim, ajoelhasse no chão do meu próprio pensamento e prometesse que eu nunca mais ficaria sozinho. Vejo suas mãos firmes segurando a promessa que sempre esperei ouvir, sua voz dizendo que me escolheu, que falou com todos os deuses possíveis, que não há mais obstáculos, nem pais, nem medo, nem despedidas. Aqui você me pede em casamento como quem sela um feitiço definitivo, como quem garante que o abandono não atravessa portais. Diz que ficaremos juntos para sempre, que eu não precisarei correr, nem provar, nem sangrar para ser amado. Dentro do hex, eu digo sim sem hesitar. O céu se fecha para proteger a cena, o tempo obedece, o amor enfim acontece do jeito certo. E por alguns instantes, tudo é perfeito. Porque neste universo, eu fui escolhido. E neste universo, eu acredito.
Finalmente te encontro, te abraço e sinto seu amor. Mas algo falta, é como se fosse uma história que fosse boa demais para ser verdade, igual a uma comida sem tempero, um bolo sem recheio. Cada beijo é como se fosse um empréstimo, as declarações são perfeitas demais, o abraço não aquece, os elogios me enojam. Não entendo, era tudo que sempre quis. Eu fiz de tudo para estar aqui e é como se eu nem existisse de verdade. Foi quando comecei a entender. Eu estava buscando as respostas nos outros, quando eu tinha todas as respostas. O olhar que queria estava no espelho, a validação que faltava estava no peito, o amor que faltou foi parental.
Eu sabia que uma hora eu iria me perder na minha própria melancolia, a fantasia tomou conta do meu ser e agora sou feito de poesia. Eu enlouqueci no meu paraíso, não sei mais quem sou, o que gosto, para quem sou e onde devo ir. Meu cérebro entra em colapso, minha magia se transforma em uma nuvem preta com raios vermelhos, meu corpo não sustenta o peso da minha mente saturada. Meu sonho se transformou em pesadelo e fui eu que provoquei a minha ruína. O meu mundo entra em convulsão, os dois mundos se fundem e eu sou a destruição.
A ventania começa dentro da minha cabeça e não há muralhas que a contenham. Ela arrasta cenas antigas como folhas mortas. Risadas que não eram brincadeira, dedos apontando, meu nome dito com desprezo, o espelho devolvendo um rosto que aprendeu cedo a se odiar. Vejo o menino que voltou da escola em silêncio, que sentou no quarto esperando um amor que nunca chegou, que confundiu ausência com culpa. Vejo o corpo pequeno tentando ocupar menos espaço, tentando ser invisível para não doer mais. A ventania cresce e traz a certeza que me perseguiu por anos, a de que ninguém jamais me amaria de verdade, a de que eu precisava ser extraordinário para merecer afeto, a de que ser eu nunca seria suficiente. Todas as versões inventadas desfilam diante de mim, todos os amores criados para tapar buracos antigos, todos os Romeus que nasceram do medo de ficar sozinho. O hex começa a falhar, o céu que pintei racha, os personagens me olham sem rosto, o tempo se dobra sobre si mesmo. A melancolia não grita, ela pesa. Ela apaga as cores, desorganiza as falas, desmonta o cenário. Meu universo não explode, ele cansa. Cansa de sustentar um coração que só aprendeu a amar para fora. E no silêncio que sobra, entendo tarde demais que fugi para a fantasia porque o mundo real nunca me ensinou a ficar.
Abro os olhos, estou em um campo de flores e observo a paz neste lugar. Toda jornada tem um destino, o caminho não somos nós que fazemos, mas podemos decidir por onde andar. A jornada nunca foi sobre o Romeu, mas sobre encontrar o seu lugar no mundo. Vivo em paz, não estou perdido, pois me reencontrei. Então viro meus olhos para o monte e observo com clareza, meu paraíso hoje não pertence ao desejo do outro, mas sim ao genuíno desejo de ser livre sendo eu mesmo. Eu só tinha que parar de ter tanto medo de ser quem eu sou de verdade, não era sobre encontrar a pessoa certa, o namoro perfeito ou viajar para outra dimensão para ser feliz, o Romeu sempre fui eu.
E assim encerro meu drama:
onde antes clamei por Romeu,
hoje respondo por mim.
Nota Especial
vocês não imaginam o prazer de ainda tê-los aqui. Foram 100 narrativas sem limites: poesias e contos, crônicas mágicas e versos que nasceram com um único propósito: transformar vidas por intermédio da escrita. Esse é o lema que desejo para o meu legado como escritor.
Em menos de um ano, transformei dor em poesia, sofrimento em linguagem, mágoas em inspiração, desejo em verdade e, acima de tudo, amores em narrativas que seguem vivas além de mim.
Confesso que foi um ano conturbado. Ainda assim, o que mais me moveu foi a certeza de que, em algum lugar, alguém lerá estas palavras, se reconhecerá nelas, talvez chore, talvez sorria. E, sem perceber, carregará pelo mundo um pouco do meu olhar, da minha melancolia e da minha forma de sentir. Isso, para mim, é magia.
Agradeço profundamente a todos que caminharam comigo e a cada leitor que acolheu meu tormento como se fosse seu. Hoje posso dizer, com orgulho, que são cem obras publicadas, três livros lançados e a alegria de anunciar que, em 2026, publicarei mais três obras, com lançamentos previstos para o início, o meio e o fim do ano.
Com carinho, Bruno Zampirolli



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