Efeito Sonder

Published on

em

Estou preso no trânsito e vejo centenas de pessoas com vidas tão complexas quanto a minha. O que me admira é saber que cada pessoa tem problemas, às vezes problemas maiores que o nosso. No trânsito cada um tem um destino diferente, tem uma família indo para um funeral porque a vovó morreu, tem um pai desesperado porque seu filho vai nascer, tem uma pessoa indo para casa feliz porque foi promovida e outra indo triste porque foi demitida, tem uma pessoa indo para casa cansado de viver. Uma senhora cansada no ponto de ônibus depois de passar o dia limpando casa para pessoas ricas. No trajeto tem um cachorrinho que sobrevive nas ruas e passa fome todos os dias. Passamos pelo bairro da cidade, onde vemos um garotinho no semáforo fazendo malabarismo.

Chego ao meu prédio e percebo que cada janelinha daquela com a luz acesa é uma pessoa ou mais de uma. Elas têm toda uma vida estruturada, têm seus problemas, têm suas dificuldades. A vizinha do 301 sofre violência doméstica do marido e tem duas filhas que também sofrem abusos do padrasto. Já o vizinho do 133 é gay e tem dificuldades em se assumir para sua família. O morador do 105 é um idoso que foi abandonado pela sua família, mas não pense que ele é coitadinho, são lágrimas de crocodilo, ele está colhendo o próprio mal.

A moradora do 134 mora sozinha e faz faculdade de medicina, é apaixonada pelo seu vizinho, o morador do 133. Sim, ela não sabe que ele é gay. O morador do 133 é apaixonado pelo morador do apartamento 135, que se apaixonou pela moradora do 134. Casos complexos e vidas separadas. No apartamento 308 mora uma jovem senhora que foi casada com o morador do 105 e separou porque ele traiu ela com a vizinha que mora no 301.

No prédio da vida mora o zelador que tem uma quedinha pela recepcionista que sempre sabe de todas as fofocas. A recepcionista é a pessoa que sempre passa despercebida, todos a conhecem, todos a cumprimentam, mas até mesmo ela, que para os outros é apenas um NPC, também tem uma vida bem complexa. Ela foi abandonada pelos pais, após a traição de seu pai, sua mãe ficou tão deprimida que casou com um cara horrível que batia na sua mãe. Cansada de sofrer tanta violência, ela saiu de casa e começou a trabalhar de doméstica para sobreviver e hoje trabalha há 20 anos no meu prédio como recepcionista e, por coincidência da vida, seu pai biológico é o morador do 105.

Sonder é o reconhecimento súbito de que cada pessoa à sua volta vive uma vida tão vívida e complicada quanto a sua, tipo um tapa suave do universo dizendo: “Ei, você é protagonista, mas todo mundo também é.” Como funciona na prática? É aquela sensação que bate quando você está num ônibus, olha para uma janela aleatória e pensa: “Caraca, a moça de fone está chorando por quê? O cara do terno está voltando pra casa ou fugindo dela? A criança olhando pro teto inventou qual história agora?” Esse efeito muda a forma como você enxerga o mundo, dá uma afinada na empatia, te deixa mais atento, mais suave, mais humano.

Por que isso pega tanto? Porque a gente vive na própria cabeça 24h por dia e, às vezes, esquece que as outras pessoas também carregam universos inteiros, guerras invisíveis, paixões inflamadas, derrotas silenciadas. O sonder te lembra disso.

Mas não importa se você está indo ou vindo, se você chora ou sorri, cada pessoa do universo tem um universo próprio dentro da sua própria mente e cada mini decisão que você toma na vida te trouxe aqui, isso aqui agora lendo esse texto. Isso quer dizer que se você tivesse feito uma coisinha diferente, mesmo que pequena, iria mudar toda sua vida. O efeito borboleta é algo incrível e incrivelmente assustador. O multiverso de possibilidades é algo que vai te assombrar, mas pode também dizer que você não é o centro de tudo e, perto da grandeza do mundo, você é só um grão de areia, mas não esqueça que mesmo um grão tem milhares de partículas.

Com Carinho, Bruno Zampirolli.

Read Next:


Deixe um comentário