Sonhei que era o vilão. Me tornei o monstro que sempre tive medo de ser. As duas versões em mim brigam para ver quem vai dominar. Sou o herói e o demônio. Acredito que o amor vencerá o ódio, mas às vezes eu queria odiar também. Quero odiar as pessoas que me fizeram mal, quero odiar o preconceito. Não queria só me defender, seria bom atacar também.
Se fizermos as mesmas coisas que eles, não somos diferentes deles. Violência gera mais violência. É o que dizem, é o que engolimos, e nada é feito. Imagina escutar todos os dias que você tem menos valor, que sua existência é uma ameaça ao modo de vida deles. Acreditam no certo e no errado, no preto e no branco, e massacram todos que são diferentes, aqueles que não seguem os trilhos.
A culpa é sua. A culpa é nossa. A culpa é deles. Enquanto uns odeiam, eu escuto minha playlist Taylor Swift – Calm Songs. Estou sempre com meus fones, pois o mundo é muito barulhento, igual à minha mente. Ouço o doce som dela nos meus ouvidos e sinto tudo ficando mais calmo. O monstro se acalma e começa a dançar. Ele escuta Calcinha Preta e rebola como ninguém. Faço de tudo para mantê-lo sob controle, pois, quando ele se descontrola, é capaz de destruir o mundo.
Digo que estou bem, mantenho essa postura. Sempre sorrindo, sempre agradando. Ajudo uma velhinha a atravessar a rua. Peço licença e sempre peço por favor. Coloco minha máscara e ninguém desconfia. Se eu agir como eles, serei como eles. Escondo meu quebra-cabeça no fundo do coração e faço tudo que me ensinaram. Tento entender o que ninguém entende. Joguei fora meus girassóis. Sempre balanço a cabeça e digo que entendi. Sempre escuto conversas longas e cansativas, mesmo que isso me sobrecarregue. Vivo no mundo da imaginação para tentar fugir daquilo que me assusta.
Adoro amores inventados, pois estão sob o meu controle, e o monstro se agrada disso. Coloco um desenho bobo na TV e ele fica entretido. Jogo videogame o dia inteiro e ele adormece. Escrevo e ele se liberta. Fico ansioso, e ele não gosta nada disso. Ele quer controlar tudo: a forma como ando, com quem falo, quem gosto e quem posso amar. O monstro sempre está de olho. Ele sabe sobre minhas fraquezas, o que gosto e tudo aquilo que ele me fez odiar.
Eu fugi para um campo de flores, mas ele já estava lá. Todas as flores apodreceram, o mundo ficou frio, e ele gosta disso. As cores se foram e vivo nesse mundo, sempre obedecendo às regras que ele mesmo cria. Quando alguém não segue o roteiro que ele inventou na própria cabeça, o monstro se zanga e afasta tudo e todos.
Não consegui controlá-lo. Ele se liberta e destrói tudo que vê pela frente. Como um ser maligno, flutua no ar. Sua força vem de todas as vezes que ficou sozinho por ser diferente. Todo o sofrimento se transforma em força, e ele é capaz de acabar com tudo aquilo que acabou com ele. O olhar dele é sombrio. Sai de perto: o demônio chegou. Ele te encara e você se arrepia. O monstro é poderoso e irá te consumir. Ele entra na sua mente e destrói cada pingo de esperança. Usa todos os seus medos a favor dele. Ele te faz acreditar que você não tem valor. Ele te convence. Você se junta a ele, e ele é capaz de te destruir.
O telefone toca. Você atende.
— O velho Bruno está?
— Desculpa, ele está morto.
Veja só o que você me fez fazer. Cada parte de mim é destruída. O monstro faz parte de mim agora e vai te destruir. Uma força cósmica me domina. O monstro sempre fui eu. Ele sempre esteve ali, mesmo que adormecido. Ele sempre observou, anotou o nome de todos que lhe fizeram mal e agora vai acabar com todos eles.
Um vendaval se ergue. Todos os objetos formam um círculo ao meu redor. Em um campo aberto, o céu se torna escuro. As nuvens ficam pretas e os raios vermelhos me atingem. Mas isso não me fere. A dor me deixa mais forte.
O silêncio veio antes da destruição. Foi um silêncio pesado, quase sagrado, como se o próprio ar soubesse que eu estava prestes a deixar de ser humano. Senti o chão vibrar sob meus pés, não por causa de um terremoto, mas porque eu tremia por dentro.
Durante toda a minha vida, tentei manter o monstro preso. Fiz promessas, criei jaulas, inventei desculpas. Mas hoje ele não pediu permissão.
Tudo começou a se mover. As paredes gemeram, o vento se contorceu, e eu ouvi o som do metal se dobrando como se fosse papel. A dor na minha cabeça virou energia, e a energia virou destruição. Era como se cada lembrança, cada cicatriz e cada grito engolido por anos estivessem explodindo ao mesmo tempo e o mundo inteiro tivesse que sentir comigo.
Os objetos flutuavam, os prédios desmoronaram, e o céu se abriu em rajadas de luz e trovões. As tempestades não me feriam; elas me alimentavam. Cada raio que me atingia deixava um rastro de fogo sob minha pele, mas eu sorria. Eu sorria, porque pela primeira vez eu não estava mais com medo.
Levantei os olhos e vi a Lua, tão fria, tão distante, tão obediente. Com um único pensamento, eu a chamei. Ela veio. Devagar, majestosa, arrastando as marés consigo. As águas rugiram, ergueram-se como muralhas líquidas e engoliram tudo. O planeta gritava, mas eu apenas respirava fundo.
Olhei em volta, para o caos, para o fim, para mim mesmo e entendi. O monstro nunca foi um intruso. Nunca foi algo que morava em mim. Ele era eu. Sempre foi. Sussurrei, com a voz rouca e calma, no meio do fim: O monstro sempre esteve em mim… porque ele sempre fui eu.
E então deixei o mundo quebrar.
Não por vingança.
Mas porque eu finalmente aceitei o que sou.
pensei que eu era o monstro
mas, sou mitologia.
com carinho e destruição, Bruno Zampirolli.



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