Lenha e Flor

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  Tharles Chandler cresceu em uma cabana com seu pai. O grande lenhador. Seu pai ensinou tudo sobre a vida, ensinou a ser um homem forte, a diferença do bem e do mal. Ele ensinou tudo, menos a ser ele mesmo e então Tharles cresceu, seguiu o legado do pai. Ele cortava a lenha como ninguém, nenhuma árvore escapava do seu machado, seu machado era enorme, forte, tão quanto sua masculinidade viril. Ele tinha uma barba definida , pele clara que realçava ainda mais seus olhos, cabelos vermelhos como o de seu pai e sempre usava uma camisa xadrez vermelha. 

   Ethan Sinclair cresceu em um lindo jardim. Morava com sua mãe em uma casa ampla e acolhedora. Sua mãe era uma jardineira incrível e ensinou ao seu filho tudo que sabia. Principalmente que ele podia ser ele mesmo. Ethan, em toda sua vida, aprendeu a cultivar, a cuidar, proteger e principalmente a amar. Ethan, era alto, possuía braços fortes de tanto carregar os sacos pesados de adubo. Ele tinha cabelos escuros, que sempre penteava em um topete. Aprendeu a ser fofo, gentil, carismático. 

   O ensino médio chegou e uniu os dois. Ethan estava atrasado para o primeiro dia de aula. Apressou os passos e rogou para todas as santidades possíveis para que chegasse a tempo. Logo no primeiro dia de aula o pobre jardineiro acabou se atrasando. Quando chegou na sala de aula, todos estavam sentados realizando as anotações. O professor deu as boas vindas ao retardatário e pediu para que se sentasse. A sala de aula era ampla, as mesas comportam dois alunos que sentariam juntos até o último dia de aula. O único lugar vago era do lado de um ruivo.

     Ethan o encarou como se soubesse toda sua história. Bom, afinal ele sabia, ambos viviam em Forks. Uma pequena cidade no estado de Washington nos Estados Unidos. Onde todos conheciam todo mundo. A Família de Tharles era conhecida por vender suas lenhas, afinal aquela cidade era fria e chuvosa. Ethan era um grande amante da natureza, obviamente odiava o fato da Família Chandler desmatar tantas árvores em seu negócio. 

    Ethan Sinclair encarou a cadeira vazia e caminhou até ela. No trajeto seu olhar encontrou com o de Tharles. Desde a primeira vez, ficou completamente encantado pela beleza do garoto. Seus olhos vermelhos diziam tanto. Com seu jeito meio desengonçado, puxou a cadeira e voltou a atenção ao professor de física. 

— Imagina o universo como um grande palco onde tudo dança ao redor de uma regra simples: opostos se buscam. As cargas elétricas, invisíveis aos nossos olhos, parecem personagens de uma história antiga, quando duas são iguais, brigam, se repelem, se afastam como rivais que não podem dividir o mesmo espaço; mas quando são diferentes, positivo e negativo, é como se um chamasse o outro, atraindo-o para perto numa força irresistível. Os átomos, que são a base de tudo o que existe, só ficam de pé porque os prótons, com sua energia positiva, seguram os elétrons negativos ao redor, como se fossem amantes presos numa órbita sem fim. E os ímãs, esses mágicos de bolso, seguem a mesma lei: Norte e Sul se encontram e se grudam, enquanto iguais se repelem. É nesse jogo silencioso que o mundo se constrói, mostrando que, na essência da matéria, os opostos não só se atraem, eles são a razão de tudo existir.

   Tharles nunca havia prestado tanta atenção em uma aula. A verdade é que a família Sinclair e Chandler se conhecem há anos. O pai de Tharles foi o primeiro namorado da mãe de Ethan. Porém o relacionamento não deu certo. Ambos seguiram sua vida e se casaram com outras pessoas que infelizmente vieram a falecer quando seus filhos ainda eram pequenos. Tharles cresceu sem uma mãe e Ethan cresceu sem um pai. Um foi ensinado a destruir e o outro a criar. 

  Os meses se passaram, a vida imitou a arte. Assim como na física, na vida os opostos se atraem. Foi inevitável. Os lábios do Ethan eram como um imã como um polo positivo e os lábios de Tharles era como um polo negativo. Ambos se atraem. Porém existem separações que impedem que a força de seu maior se consuma. Tharles nunca questionou sua sexualidade, nunca experimentou, nunca duvidou. Pois, para ele sua masculinidade estava acima de tudo. Ele não se permitia sentir, pois isso fere tudo que ele aprendeu. A sociedade ensinou que ele deveria ser forte, que não podia chorar ou expressar suas emoções. Em uma aula de Educação sexual sua mente se abriu. A professora usava óculos grandes, era alta, cabelos pretos longos, cachos soltos que dançavam ao vento. 

— Então, turma, imaginem que a sociedade tem uma “linha do tempo invisível” sobre como as pessoas deveriam se comportar em relação ao amor e ao sexo. Desde cedo, nos é ensinado que se apaixonar por alguém do sexo oposto é “normal”, é esperado, é o caminho natural da vida. Isso é o que chamamos de heterossexualidade compulsória. A palavra pode parecer difícil, mas ela tem duas partes: “hetero” (que significa atração por pessoas do sexo oposto) e “compulsória” (que quer dizer algo que é imposto, quase que obrigado). Ou seja, a sociedade empurra a ideia de que todo mundo deve ser heterossexual, mesmo que a pessoa não sinta atração por outro gênero. É uma pressão invisível, mas poderosa: filmes, músicas, histórias de família, até a escola reforçam que amar alguém do sexo oposto é o único caminho. O problema é que isso pode gerar muita confusão e sofrimento para quem sente atração por pessoas do mesmo sexo ou por múltiplos gêneros. Imagine uma adolescente que gosta de outra garota, mas vê todo mundo elogiando só casais de menino e menina; ela pode sentir que está fazendo algo “errado” ou que precisa esconder quem é. Isso acontece porque a heterossexualidade não é só uma orientação sexual natural, que muitas vezes, ela é imposta como regra, mesmo sem ser o desejo real da pessoa.

      Tharles finalmente havia entendido. Ele nunca pode experimentar outras coisas, nunca questionou sua sexualidade, nunca passou por um momento de descobertas, pois o mundo já havia ditado sua vida antes mesmo dele decidir qualquer coisa. Ethan passou a vida com liberdade. Mas mesmo assim sentia que ele não podia ser ele mesmo. Porque a sociedade sempre determinou um padrão que todos os homens deveriam seguir. Ele sempre se encontrou no universo feminino, mas todas as vezes que estava prestes a ser ele mesmo, se deparava com o olhar feroz do julgamento. 

      Foi quando o destino uniu pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas que ambos descobriram o que tinham em comum. A cada aula aprendem algo novo, sobre a vida e sobre si mesmo. Faziam todas as tarefas juntos. Tharles tinha uma camionete velha e andava para todo lado com Ethan. Era horas de conversa. Mesmo não falando muito com outras pessoas, tinha algo no Ethan que fazia o ruivo desabafar. Foi quando ficaram mais próximos que Tharles percebeu que talvez não fosse hétero. Ele já havia se relacionado com muitas mulheres, afinal era um cara bem atraente, nunca se permitiu tentar coisas novas. Mas a presença do Ethan era mais do que provocativa, o moreno tinha a personalidade de um Golden Retriever. Animado, agitado, falante como um papagaio, sarcástico e engraçado. Tharles até tentava disfarçar, mas não conseguia esconder um sorrisinho no rosto toda vez que via Ethan. Foi na aula de Filosofia que ambos começaram a se entender.    

— Sabe quando a gente olha pro mundo e parece que tem um monte de “regras” sobre como a gente deve se comportar, se vestir ou amar? Então, muitas dessas ideias são chamadas de construções sociais, ou seja, coisas que a sociedade foi inventando e passando de geração em geração, como a ideia de que azul é de menino e rosa é de menina, ninguém nasce achando isso, a gente aprende. Dentro dessas construções tem o que a gente chama de papel de gênero, que é tipo o “papel” que esperam que você atue, como se fosse um personagem: menina tem que ser delicada, menino tem que ser forte, e por aí vai… mas isso não tem nada a ver com quem você realmente é ou quer ser. Já a orientação sexual é outra parada: é sobre quem você sente atração, pode ser por meninos, meninas, pelos dois, por nenhum, e tudo bem! Cada pessoa sente de um jeito, e tá tudo certo em ser diferente do que esperam, porque o importante é viver sendo quem você realmente é, com respeito por si e pelos outros.

   O conhecimento é libertador, pois é quando sabemos a explicações reais, fatos, argumentos concretos que entendemos que o que aprendemos com algumas pessoas são apenas preconceitos. No sentido bem literal das palavras são entendimentos carregados de uma definição pré definida, às vezes cultural, baseada em religiões ou até mesmo em discursos de ódio. Mas quando nos desprendemos desses preconceitos, quando deixamos as diferenças de lado e nos permitimos sentir todos os sentimentos, finalmente nosso coração irá parar de chorar. Pois, quando se tem disposição para correr o risco, a vista do outro lado é espetacular. 

6 meses depois 

     Após meses de convivência, Tharles enfrentou uma doce rendição. Era inevitável que ele estava totalmente rendido ao moreno. Ele até tentou negar, tentou esconder, não sentir, encobrir. Mas nada disso adiantava. Ethan nem em seus melhores sonhos poderia acreditar que um dia iria ouvir aquelas palavras da boca do lenhador. 

— Ethan, antes de te conhecer meu mundo era preto e branco. Fui ensinado a reprimir meus sentimentos. Mas, a verdade é que exige mais coragem para dizer o que sentimentos do que para continuar calado. É mais fácil destruir do que plantar. Mais fácil odiar do que amar. Ser homem vai muito além dos estereótipos da sociedade. Mesmo sendo como sou, com todas as minhas imperfeições você me ensinou o que é o amor e principalmente: como amar. Passei a vida cortando árvores e me apaixonei pela pessoa que as plantava. 

— Tharles, eu passei a vida colhendo, plantando, cultivando. De fato amar exige mais dedicação do que apenas cortar e destruir. Porém, seu trabalho também tem seu papel no mundo e principalmente você se desconstruiu. Desvinculou tudo aquilo que esperavam de você e começou a plantar a semente que deseja em si mesmo. Eu estive com você todo esse tempo, mas somente você pode mudar seus ideais e você fez isso sozinho. Porque você quis mudar e isso é lindo! Almas gêmeas não são iguais, são aquelas que se amam, mesmo sendo diferentes. 

                                                       10 anos depois 

     Dez anos se passaram e o lenhador ainda estava apaixonado pelo jardineiro. O jardineiro cultivou seu jardim, regou, cuidou, amou e por fim colheu seus frutos. Foram anos de desconstrução para que Tharles pudesse se descobrir por completo, cada conquista mesmo que mínima o fizeram ser mais livre, longe das amarras invisíveis da sociedade. Os dois aprenderam a se amar. Cada estação que passava era um novo ciclo de mais aprendizado. Todo natal eles penduravam luzes pela casa inteira e deixavam a decoração de natal até o final de janeiro. Se mudaram de Forks, uma grande mudança foram para New York e lá o amor deles se multiplicou. Se casaram e adotaram um golden retriever e uma linda garotinha loira. Batizaram o cachorro de max e a garotinha de Stefanny. Mas todos chamavam de Ste.

   Eles viveram juntos para sempre. Nem sempre felizes, mas juntos. Enfrentaram o preconceito, primeiramente o próprio e também o alheio. Teve dias que quiseram desistir, que tudo veio à tona. Mas aos poucos aprenderam que o amor não se constitui apenas de maneira tradicional. O amor é um sentimento complexo que explora sensações únicas e variadas. 

                            “Assim como eles espero que enfrente seus demônios”

Com carinho, Bruno Zampirolli.

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