Era uma vez uma pequena formiga, chamada Fu, e seu sobrenome era Miga. Fu estava distante de todos, incompreendida, sozinha que só ela, tadinha da Fu. Tão doce quanto flor de jasmim. Tão dócil quanto uma égua no cio e tão gentil quanto o Grinch no Natal. Fu era péssima com todos, tratava todos mal, com indiferença, sempre dizia que não precisava de outras formigas. Recusava todos os convites e reclamava de estar só. Respondia a todos com grosseria e reclamava que ninguém falava com ela. Debochava de todos, mas chorava quando riam dela.
A Fu Miga cresceu acreditando que todos deveriam atender suas necessidades; afinal, era filha da rainha. Estava acostumada com todos passando a mão em sua cabeça. Tadinha da Fu, tão indefesa. Até que um dia ela conheceu uma abelha chamada Beeoncé Pólenita. Diferente da Fu, a Bee sempre tratava todos com igualdade e muita simpatia. Sempre olhava mais para a dor do outro e, mesmo tendo sofrido muito na vida, nunca se vitimizava tanto quanto a Fu.
O destino uniu as duas: uma abelha e uma formiga. A Bee sempre iria até o formigueiro para passar um tempo com a melhor amiga. Mas a Fu nunca a visitou na colmeia; afinal, uma princesa nunca saía de seu castelo. Diferente da Fu, a Bee era filha de operários. Mesmo não tendo todos os privilégios de uma princesa, ela sempre foi a verdadeira Queen.
O desequilíbrio estava mais do que óbvio. Bee ouvia a Fu desabafar por horas, mas nunca desabafava também, e quando falava, Fu sempre dava um jeito de voltar a ser o centro das atenções. Bee não sabia, mas precisava ser mais egoísta. Ela era muito boazinha, não entendia que se não colocarmos limites nas pessoas, elas vão nos usar até sobrar pó. Bee estava lixando as unhas das patas de Fu.
— Ai amiga, você não vai acreditar! Eu estava na festa do formigueiro e nem te conto quem veio falar comigo. — Fu disse igual uma Little Formigirl.
— Conta, conta! — Bee disse animada.
— O Formiguel!
— Não acredito! — Bee gritou. — E o que ele disse?
— Ele estava junto com o Formigato e o Formigona. Ele veio até mim e disse: “Boa noite, Fu Miga”. — Fu deu ênfase no “boa noite”. — Ai amiga, obviamente ele estava afim de mim, dando boa noite daquele jeito. Você sabe como é a formiga macho, né? Não pode ver uma formiguinha como eu que já fica louco.
— Que legal, amiga, eu também encontrei com alguém que gosto.
— Quem? — Fu disse com desdém.
— Com o Melchior!
— Outra vez essa história de Melchior? Eu já te disse que um zangão como ele não ficaria contigo. Não estou dizendo isso para te machucar; só estou dizendo pelo seu bem. Você sabe que sou sincera.
Bee sempre aceitou os desaforos da Fu. Mas uma raiva surgiu em seu peito, e ela despejou:
— Estou cansada da sua sinceridade maligna, Fu! Fico horas ouvindo falar das coisas mais sem graça do mundo ou de todas as vezes que o Formiguel foi apenas educado com você. É muito fácil chamar atenção quando se é princesa e muito mais fácil ainda ser sincera quando é o direito do outro que está sendo desrespeitado. Mas já que a ideia é ser sincera, vou lhe dizer a maior verdade: você é uma formiguinha histriônica, egoísta, egocêntrica, mimada que não mede seus privilégios!
Fu ficou paralisada; Bee nunca havia falado com ela daquela forma. Fu era tão narcisista que nunca havia notado que talvez ela fosse o problema. Afinal, o formigueiro inteiro não gostava dela, e seria culpa das outras 10 milhões de formigas da colônia?
Bee pensava todos os dias que, em geral, as formigas são ultracooperativas, sempre trabalhando pelo bem da colônia, colocando as necessidades dos outros acima das suas. Sua amiga, em questão, fazia o oposto disso. O que era irônico, porque a Fu era a próxima rainha. Cansada de toda aquela agonia, Bee voou para longe dali. Até que viu seu zangão mais atraente. De fato, Melchior era um baita partido; era uma verdadeira geladeira Electrolux das abelhas.
— Oi, Beeoncé! Tudo bem? — Melchior disse com uma voz grave e atraente.
— Oi, Melchior. — Bee respondeu desanimada.
— O que aconteceu?
— Eu briguei com minha amiga, Fu.
— Fu quem? — Ele respondeu com uma expressão confusa.
— A Fu Miga, minha amiga.
— Ah, aquela formiguinha metida? Sinceramente, Bee, nem sempre, mas às vezes há um motivo para algumas pessoas serem excluídas. Não que algum animal mereça passar por isso, mas talvez seja o caso da Fu. Ela não valoriza as amizades e não entende que suas ações têm consequências. Eu nunca gostei dela, pela forma como ela tratava você.
— Melchior, você não entende! Ela é minha única amiga, não posso ficar sem ela.
— Às vezes a pessoa que você mais quer por perto é a que mais atrasa sua vida.
— Mas eu a amo, não sei como posso viver sem ela.
— Bee, às vezes temos que largar a mão de quem juramos nunca soltar. Sei que ama sua amiga, mas ela não te faz bem. Isso não anula tudo que já tiveram, só diz: “foi bom enquanto durou, mas essa relação está me fazendo mal”. As amizades vêm e vão, mas o verdadeiro amigo sempre sabe como ficar. Não podemos viver da nostalgia.
— Eu fiz tudo, juro! Eu me dediquei, eu estava sempre lá. Mas não importava o quanto de atenção eu dava para Fu, ela nunca estava satisfeita. Parecia que eu nunca serei… — Bee não conseguia completar a frase.
— Parecia que você nunca seria boa o suficiente? — Melchior completou.
Naquele instante, pela primeira vez, Bee se sentiu compreendida. Sentiu-se acolhida. Ela começou a dançar em agradecimento às palavras de Melchior. No idioma das abelhas, essa era a forma mais pura de carinho. Melchior se manteve atento e estava completamente feliz em ajudar. A verdade é que ele sempre gostou da Beeoncé, só que ela estava tão preocupada com os outros que nunca notou o quanto aquele zangão a achava melzuda.
No momento em que Bee olhou para o horizonte, deparou-se com sua amiga Fu, tentando escalar uma árvore; ela estava caminhando na direção de um humano. Bee ficou apavorada: ela vivia no mundo externo e sabia que os seres humanos não respeitam nenhuma forma de vida, nem mesmo a sua.
Então ela voou na direção dela, e Melchior a seguiu. Fu estava determinada a cumprir seu objetivo: afugentar o humano de perto de seu formigueiro. Eles sempre destruíram boa parte da colônia. Então ela iria injetar seu poderoso veneno. Quando se aproximou do humano, picou-o. O humano, raivosamente, gritou:
— Eu te mato, sua formiga idiota!
Fu sentiu o medo entrar em seu pequeno corpo; ela carregava 50 vezes o seu próprio peso, mas não suportaria o peso de um belo tapa. Na tentativa de salvar a amiga, Bee ferroou o humano. Ela se concentrou tanto em ajudar o outro que se esqueceu de que, diferente das formigas, que machucam alguém e seguem suas vidas tranquilamente, as abelhas morrem após perder o ferrão. No fim de tudo, ela não se sentiu mal em dar sua vida por alguém; afinal, ela nunca soube valorizar a própria existência.
No fim, a Fu sempre foi uma formiguinha insegura que menospreza o outro para se sentir grande, pois, no fundo, morria de medo de ser rejeitada. Melchior, por mais de sua masculinidade viril, nunca se sentiu forte o suficiente, e em seu peito só havia o medo de fracassar. No fim, todos só queriam ser aceitos.
Lição de moral: Olhando para minha própria fábula, percebo que ela não é só sobre uma formiga e uma abelha; é sobre como lidamos com o ego e as relações humanas, mesmo que em forma de insetos. A Fu representa aquela pessoa que, por mais que tenha tudo, atenção, privilégios, status, nunca aprende a se colocar no lugar do outro. Ela é narcisista, mimada e histriônica, e isso a deixa isolada, mesmo cercada de milhares de formigas. É quase triste perceber que alguém pode ser tão “doce” e ao mesmo tempo tão destrutivo consigo e com os outros.
Por outro lado, a Bee é um reflexo do que muitos de nós queremos ser: empática, gentil, capaz de ouvir, cuidar e se doar, mas ainda assim vulnerável por não saber impor limites. É nesse contraste que a história se torna real para mim. Quem nunca se sentiu esgotado por um amigo que só leva e nunca devolve? A Bee aprende que não basta ser boa: às vezes, é necessário dizer “chega”, colocar fronteiras e cuidar de si mesmo.
Melchior surge como aquele ponto de equilíbrio, alguém que reconhece e valoriza o esforço de Bee. Ele mostra que relações saudáveis são possíveis quando há respeito, atenção e reciprocidade e que amor ou amizade não precisam ser sofridas para serem genuínas.
No fim, minha fábula me deixou uma certeza: a vida social, mesmo que em miniatura, exige consciência emocional. Todos queremos ser aceitos, mas também precisamos aceitar que nem todo mundo está disposto a nos enxergar de verdade. E isso, no fundo, não é só sobre insetos; é sobre pessoas, limites, empatia e sobre como equilibrar carinho com autovalorização.
Com carinho, Bruno Zampirolli. 🤓



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