Depois do Universo
Capítulo 1 – O Encontro Sob a Figueira
Elias tinha uma mania curiosa: observava o mundo como se estivesse sempre dentro de um filme. O barulho dos carros na avenida virava trilha sonora, as folhas secas que rodopiavam no chão eram metáforas, e até a chuva tinha um significado secreto. Era romântico até os ossos, mas escondia esse excesso de sensibilidade em piadas rápidas e sorrisos fáceis.
Loiro, de olhos azuis que pareciam guardar um brilho de sarcasmo eterno, usava roupas coloridas demais para quem vivia numa cidade cinza.
Naquela tarde de agosto, ele estava sentado sob a figueira do campus universitário, a árvore mais antiga da praça central, rabiscando um caderno com letras soltas de músicas que nunca terminava.
Foi ali que viu Liam pela primeira vez.
Liam caminhava sozinho, mochila nos ombros, passos pesados. Moreno, pele marcada pelo sol, cabelos negros e desarrumados, tinha uma presença que não gritava, mas pesava. Seus olhos castanhos eram tão escuros que parecia impossível decifrar o que ele pensava.
Era reservado. Daqueles que preferem o silêncio a qualquer conversa inútil. Não era tímido, só não via motivo para se gastar com quem não merecia.
Elias, do seu canto, deixou o olhar demorar.
Bonito demais pra estar sozinho, pensou.
A cena poderia ter acabado ali, mas o destino tinha dessas ironias. Liam parou de repente, olhou ao redor, e percebeu que havia deixado cair uma folha dobrada do caderno da aula. O vento levou direto aos pés de Elias.
— Ei, isso é seu? — Elias ergueu o papel, sorrindo com aquele jeito que misturava charme e provocação.
Liam se aproximou devagar, como quem pisa em território desconhecido.
— É… valeu. — Pegou o papel sem contato visual, quase arrancando.
Elias arqueou uma sobrancelha.
— Nossa, um “obrigado” teria matado?
Pela primeira vez, Liam o encarou. Foi um segundo, mas suficiente: os olhos escuros encontraram os azuis, e Elias sentiu aquele arrepio idiota percorrer a espinha.
— Obrigado — Liam disse, curto, seco, mas com uma voz grave que tinha algo melancólico.
Elias riu sozinho, vendo-o se afastar.
— Mal-humorado… mas bonito.
No mesmo instante, Anne chegou. Amiga de Elias, cabelos ruivos em tranças malfeitas, o tipo que vivia atrasada, mas sempre com uma energia que transbordava.
— Tá rindo de quê, Elias?
— Nada, só de como o destino adora brincar comigo.
— Tradução: achou alguém bonito.
Elias piscou.
— Talvez.
Do outro lado, Liam encontrou o colega de curso, Daniel, que logo percebeu sua expressão distante.
— Tá com cara de quem viu fantasma.
— Só tropecei num loiro falante.
— Cuidado, esses são os mais perigosos. — Daniel riu.
Elias passou o resto da tarde olhando de longe quando Liam aparecia no campus. Não era paixão à primeira vista, era curiosidade. Como se algo naquela seriedade escondesse histórias que ele queria desvendar.
E Liam? Ele fingiu esquecer. Mas, à noite, quando abriu o caderno para estudar, percebeu que a folha que quase perdeu era justamente um rascunho íntimo, um texto rabiscado com frases sobre solidão e perda. Por algum motivo, o incômodo não era por quase ter perdido o papel… mas pela ideia de que Elias poderia ter lido.
E dormiu pensando nisso.
Capítulo 2 – Conversas de Confissão
Elias estava deitado no gramado da praça, com a cabeça apoiada na mochila. Anne, ao lado, mordiscava uma maçã como se aquilo fosse resolver todos os seus problemas acadêmicos.
— Você tá diferente — ela disse, com a boca cheia.
— Diferente como? — Elias arqueou uma sobrancelha.
— Não sei… com cara de quem tropeçou na vida.
Elias riu, mas o riso saiu meio forçado.
— Talvez eu tenha tropeçado em alguém.
Anne virou o corpo, interessada.
— Sabia! Quem é?
— Não é nada. Só um cara fechado, misterioso, que parece carregar todos os segredos do mundo nos olhos.
— Elias, você acabou de descrever o protagonista de um romance trágico.
— Exato. É isso que me assusta.
Anne deu uma risada alta.
— Ai, Elias… você não cansa de se apaixonar por problema?
— Eu não tô apaixonado! — defendeu-se rápido demais. — Só… curioso.
— “Curioso”, sei. — Ela balançou a maçã na frente do rosto dele. — Curioso é quando você quer saber a fórmula de química, não quando você fica descrevendo o brilho dos olhos de alguém.
Elias suspirou, derrotado, encarando o céu entre as folhas da figueira.
— Eu só queria… por uma vez, Anne, que alguém me escolhesse. Não ser sempre eu correndo atrás.
Anne ficou em silêncio. E, por alguns segundos, não havia piada que coubesse.
Enquanto isso…
Na outra ponta do campus, Liam chutava pedrinhas no caminho, andando ao lado de Daniel.
— Tá estranho — Daniel comentou. — Você mal falou na aula.
— Nada não.
— “Nada não” é frase de quem tem um mundo inteiro preso na garganta. Desembucha, irmão.
Liam respirou fundo, encarando o chão.
— Conheci um cara…
Daniel abriu um sorriso malicioso de imediato.
— Opa, finalmente!
— Não é o que você tá pensando. Ele só… sei lá. É diferente.
— Diferente como?
— Falante demais. Colorido demais. Parece que não tem medo de nada.
— E você gosta disso? — Daniel cutucou o braço dele.
— Eu não disse que gosto.
— Mas pensou.
Liam rolou os olhos, mas não conseguiu disfarçar o meio sorriso nervoso.
— Eu só não entendo. Eu nunca… nunca olhei pra um cara desse jeito.
Daniel riu, jogando a mochila no ombro.
— Bem-vindo ao clube dos confusos.
— Não brinca com isso. Eu não sou…
— Não é nada. Você é o Liam. O resto você descobre depois.
Liam ficou em silêncio. Mas naquela noite, deitado na cama, o rosto de Elias voltou à mente. O sorriso debochado, os olhos azuis demais, a forma como tinha dito “um obrigado teria me matado”. E, pela primeira vez, ele se perguntou se estava realmente tão certo sobre quem era.
Elias, no quarto, rabiscava no diário uma frase solta:
“Ele é silêncio. E eu sou barulho. Mas, de algum jeito, nossas frequências se encontram.”
Anne tinha razão. Ele estava se apaixonando outra vez.
Capítulo 3 – A Viagem
A universidade inteira estava em alvoroço com a excursão anual. Um fim de semana num acampamento afastado, para “atividades acadêmicas e integração social”. Traduzindo: bagunça, risadas e, se desse sorte, romances mal resolvidos.
Elias adorava esse tipo de evento. Estava animado desde que acordara, arrumando a mala com roupas coloridas demais, três cadernos (apesar de saber que não ia escrever nada sério) e um livro de poemas que jurava levar “só por desencargo”.
Já Liam estava do outro lado do espectro da empolgação. Jogou duas camisetas, um par de tênis e o necessário numa mochila surrada. Reclamava desde cedo:
— Três dias no mato. Quem teve essa ideia?
Daniel riu.
— Relaxa, cara. Vai ser divertido.
— Não quando você odeia multidões.
— Você não odeia multidões. Você odeia admitir que pode gostar de alguma coisa.
Liam suspirou, mas não retrucou.
Na saída, os grupos começaram a se formar. Por ironia — ou destino —, Anne correu até Elias e o puxou pelo braço.
— Já tenho dupla de viagem. — Depois, piscou para Daniel. — Quer ser nossa dupla também?
Daniel deu de ombros, divertido:
— Claro. Sobrou pro Liam.
E assim nasceu o quarteto improvável. Anne e Daniel na frente, já trocando piadas, e Elias e Liam atrás, como dois polos opostos condenados a dividir o mesmo campo magnético.
No ônibus, a cena foi ainda mais deliciosa para o universo conspirador.
— Só tem um lugar vago aqui — disse Anne, apontando. — Elias e Liam, vocês ficam juntos.
Elias sorriu com malícia.
— Que azar o seu, Liam. Vai ter que me aguentar por algumas horas.
— Prefiro o silêncio. — Liam encostou na janela, colocando fones de ouvido.
— Ótimo, vou narrar em voz alta o que eu vejo. — Elias apoiou o queixo na mão e começou: — Árvores passando, um cachorro na estrada, um loiro maravilhoso tentando quebrar o gelo com um moreno carrancudo…
Liam fechou os olhos, fingindo dormir, mas não conseguiu conter um sorriso minúsculo
Enquanto isso, Anne e Daniel estavam em plena sintonia.
— Então você toca violão? — ela perguntou, encantada.
— Um pouco. — Ele deu de ombros. — Gosto de música, mas não sou bom como esses caras de festa de luau.
— Ah, aposto que é. — Anne o cutucou. — Quando chegar lá, quero ouvir você tocar.
— Só se você cantar.
— Fechado.
Elias observou de longe, murmurando para Liam:
— Já viu isso? Eles vão se beijar antes mesmo de chegarmos.
— Melhor assim. Você fica de vela e me deixa em paz.
— Você acha que eu sou chato?
— Você fala demais.
— E você fala de menos. Equilibra. — Elias piscou.
Liam bufou, mas por dentro sentiu o estômago revirar. Elias era… insistente. Do tipo que não se afastava, não se intimidava. Isso deixava tudo mais confuso.
O sítio era amplo, com chalés de madeira espalhados e um lago enorme refletindo o céu alaranjado do entardecer. Os alunos se espalharam, animados, correndo para garantir os melhores quartos.
Anne voltou correndo, rindo.
— Gente, vocês não vão acreditar. Os quartos lotaram rápido demais… e adivinha?
Daniel já ria antes da resposta.
— Aposto que sobrou só um. — Liam disse com cara de poucos amigos.
— Exato. Só um quarto. Só uma cama. — Clara gargalhou. — Vocês dois vão ter que se virar.
Elias abriu um sorriso malicioso, teatral.
— Eu aceito o sacrifício.
Liam fechou a cara.
— Isso é ridículo.
— Relaxa — Elias disse, batendo no ombro dele. — Prometo não roncar.
No fundo, Anne e Daniel já estavam tão absorvidos um pelo outro que mal prestaram atenção. O quarteto começava a se dividir em dois pares distintos.
No chalé, a cena era quase cômica. Só tinha uma cama de casal no centro, lençóis brancos, uma janela aberta deixando entrar o cheiro fresco do campo. Elias jogou a mala num canto e se atirou na cama, de braços abertos.
— Finalmente! É macia.
— Eu durmo no chão.
— Nada disso. A cama é grande, dá pros dois.
— Não.
— Sim. — Elias virou o rosto, encarando-o com aquele olhar azul provocador. — Ou você tem medo de dividir espaço comigo?
Liam travou. Não respondeu. Apenas pegou a mochila e fingiu estar ocupado. Mas o coração batia mais rápido.
Elias sorriu sozinho, vitorioso.
Lá fora, Anne e Daniel riam, perdidos um no outro. Dentro do quarto, o silêncio entre Elias e Liam não era vazio, era tensão. Daquelas que qualquer um poderia cortar com uma palavra mal colocada. E pela primeira vez, Liam percebeu que talvez três dias no sítio não fossem longos o suficiente.
Capítulo 4 – Escuridão
O chalé era pequeno, iluminado apenas por uma lâmpada fraca no teto. Elias folheava seu livro de poemas enquanto Liam organizava a mochila no canto. O silêncio entre os dois parecia sólido, até que a lâmpada piscou uma, duas vezes… e apagou de vez.
— Ótimo. — Liam suspirou. — Agora estamos no escuro.
— Eu prefiro pensar que estamos num cenário romântico — Elias provocou. — Tipo um filme independente, dois rapazes presos numa cabana, aprendendo a conviver…
— Você não sabe parar, né?
— Não. E você não sabe como começar. Então estamos empatados.
A escuridão se espalhou como uma manta. Só se ouvia o barulho distante dos grilos do lado de fora. Elias mexeu na cama.
— Sabe, é estranho… No escuro a gente fica mais honesto. Como se ninguém pudesse nos ver de verdade.
Liam permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois, respirou fundo.
— Eu não gosto de falar.
— Eu percebi. — Elias sorriu, mesmo sem ser visto. — Mas talvez você precise.
Houve uma pausa. Até que, pela primeira vez, Liam deixou as palavras fluírem:
— Eu não confio fácil. — A voz saiu baixa, quase áspera. — Cresci aprendendo que, se você fala demais, as pessoas usam contra você. Então calei. Porque ficar quieto é mais fácil do que falar.
— E isso não cansa?
— Cansa. — Ele suspirou. — Mas também protege.
Elias apoiou o rosto no travesseiro, ouvindo-o com atenção rara.
— Então talvez você só precise de alguém que não use contra você.
— E você acha que pode ser esse alguém? — Liam rebateu.
— Eu sei que posso.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era incômodo. Era cheio. Cheio de tudo o que não conseguia dizer em plena luz do dia.
Liam continuou, mais solto do que nunca:
— Eu não suporto multidões porque sempre me sinto… menor. Invisível. Você fala como se o mundo fosse ouvir. Eu, quando falo, acho que ninguém vai se importar.
Elias sorriu.
— Eu me importo.
— Nós acabamos de nos conhecer…
— Mas, eu continuo me importando…
— Porque você gosta tanto de ler?
— Porque é lendo que eu fujo do meu mundo, é falando que minha mente fica quieta. É imaginando que mudo minha realidade.
— Bom, eu gosto de fugir também. Eu adoro escutar rap por conta disso, consigo voar nas nuvens escutando…
— Você tem cara mesmo que adora rap e trap…
— E você do que gosta?
— Pop
— Você tem algum artista em específico?
— Taylor Swift. Mas não me pergunte sobre ela, se não quiser me ouvir falando por 3 horas seguidas.
— Você gosta mesmo dela!
— Também gosto de caras morenos, sarcásticos com um tom misterioso.
A frase pairou no ar, mais pesada do que qualquer outra.
De repente, um barulho lá fora: um estalo seco, como galho quebrando. Liam se ergueu num impulso, instintivo, puxando Elias para trás dele.
— Fica quieto.
— Nossa, protetor. — Elias sussurrou, o coração acelerado. — Até parece que gosta de mim.
— Cala a boca. — Mas a mão de Liam permaneceu firme, segurando-o.
Segundos depois, o barulho cessou. Talvez fosse só um animal. Talvez não. Mas, no escuro, qualquer coisa parecia maior do que era. E foi aí que aconteceu. Elias, tentando se mover, escorregou no lençol mal estendido e caiu de repente. Direto sobre Liam.
O choque foi rápido, mas a consequência ficou. Os dois no chão, peito contra peito, respirações misturadas. O silêncio agora era outro: denso, cheio de eletricidade.
Elias riu baixinho, tentando disfarçar o nervosismo.
— Bom… essa cena não estava no roteiro.
Liam não respondeu. Apenas ficou ali, sentindo o calor próximo demais, o coração batendo forte demais. E pela primeira vez, Elias não fez piada. Apenas deixou o silêncio falar por ele.
Capítulo 5 – Vozes, Água e Sonhos
A manhã no chalé começou calma. O sol entrava pelas janelas, desenhando faixas de luz sobre a cama compartilhada. Elias espreguiçou-se, esticando os braços e soltando um suspiro de satisfação. Liam virou-se de costas, ainda com o corpo rígido, fingindo dormir, mas o coração disparado denunciava que nada da noite passada havia sido esquecido.
— Bom dia, dorminhoco — murmurou Elias, batendo levemente no ombro de Liam.
— Bom dia — respondeu ele, seco, sem olhar.
— Então… nada de comentário sobre ontem? — Elias arqueou uma sobrancelha, malicioso.
— Nada — disse Liam.
O silêncio entre eles, ao contrário de ser pesado, era carregado de uma tensão que nenhum dos dois sabia nomear.
Enquanto tomavam café, Elias começou a falar de algo que o deixava genuinamente animado: música.
— Vocês sabem que Taylor Swift é praticamente a minha vida, né? — começou, mexendo no celular. — Desde Fearless, Red, 1989, até Midnights… cada álbum tem um universo próprio. Eu conheço todos os detalhes das letras, cada referência, cada história.
— Sério? — Liam perguntou, curioso, mas mantendo o tom contido.
— Sério. E não é só Taylor! Gaga, Adele, Rihanna… mas a Taylor… ela é diferente. Cada álbum, cada música, parece que está contando minha própria história, mesmo que eu nem tenha vivido tudo. — Elias sorriu. — Tipo, All Too Well… meu Deus, dá vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.
— Nunca ouvi tanta paixão por uma cantora antes — Liam comentou.
— Paixão é pouco. — Elias riu baixo. — Mas é isso, cada música é um confessionário. E você… você escuta, mesmo quando eu falo demais.
Liam desviou o olhar, corando levemente. Era estranho: ele não falava muito, mas sentia cada palavra de Elias como se estivesse gravada na pele.
Após o café, o quarteto decidiu explorar o acampamento. Anne e Daniel riam juntos, trocando provocações e fotos, enquanto Elias e Liam ficaram para trás, em silêncio relativo, mas próximos fisicamente.
— Tem algum mapa? — perguntou Liam.
— Não precisamos. — Elias girou em torno de uma árvore, observando o entorno. O lugar é grande, mas seguro. Podemos nos perder e ainda achar o caminho de volta.
Enquanto caminhavam, Liam não conseguia ignorar o corpo de Elias: a postura leve, o jeito de mover os braços, o cabelo loiro brilhando no sol. Uma sensação inesperada percorreu seu corpo, e ele percebeu que o moreno não era imune a isso.
— Você é… engraçado — disse Liam, tentando soar neutro.
— Só quando quero — respondeu Elias, rindo. Mas algo na risada parecia diferente, tímido. — E você não disse nada. Tá me observando demais.
Liam desviou o olhar, mas não conseguiu esconder a respiração mais pesada. Elias percebeu e tentou disfarçar, virando-se para admirar o céu. Chegaram à cachoeira depois de uma trilha curta. A água caía com força, formando uma névoa que molhava levemente o chão e os pés de quem se aproximava. Anne e Daniel ficaram ocupados com fotos e selfies, deixando Elias e Liam sozinhos.
— A água é gelada — Elias comentou, tirando os tênis e sentindo a corrente nos pés.
— Você disse isso só agora? — Liam respondeu, sem conseguir esconder a admiração por cada gesto do loiro. Então, por impulso, Elias tirou a camiseta. Um corpo definido, músculos tonificados, que Liam não pôde deixar de notar. O moreno ficou em silêncio, absorvendo cada detalhe. Elias corou, percebendo que Liam não estava olhando casualmente.
— Bom… — Elias gaguejou, tentando sorrir e ao mesmo tempo se cobrir, — acho que… não sei… faz calor.
— Está ótimo — Liam disse simplesmente, deixando escapar o efeito que Elias tinha nele.
A tensão era palpável, mas nenhuma palavra podia expressá-la completamente. Apenas olhares e respirações, e a consciência crescente de que algo estava mudando entre eles.
Quando o sol começou a se pôr, voltaram para o chalé. O silêncio agora era confortável, quase familiar. Elias sentou-se na cama, e Liam, em silêncio, observava o loiro falar sobre suas paixões musicais, desabafando sobre Taylor, Gaga, Adele e Rihanna. Liam ainda não falava muito, mas agora escutava com atenção absoluta.
Naquela noite, Elias adormeceu primeiro, exausto das emoções do dia. E foi então que teve um sonho vívido, quase como uma lembrança distante:
“Estou de joelhos pedindo que a profecia seja quebrada. Em um jardim tranquilo e florido eu descansava, ainda no ventre de minha mãe. Debaixo de uma figueira, ela repousava tranquilamente. Ela estava serena, seu ventre era aconchegante e, em meio àquela calmaria, uma folha de figueira caiu em sua barriga. Ali eu o senti, eu pude prever todo o meu futuro. Eu fui amaldiçoado! A profecia tinha sido selada. Eu não podia fazer nada.
De repente eu estava em um lugar diferente. O céu estava claro, lembro de estar em uma rua apertada e pouco movimentada. Caminhando em uma estrada densa e muito íngreme, no céu não havia nuvens nem cor. De repente a estrada se encheu de água. A água era pura, cristalina e não podia me ferir. Eu tinha tanta sede que podia beber daquela fonte.
Quando cheguei ao topo daquele morro, encontrei uma árvore. A mesma figueira em que minha mãe repousava. O céu deixou de ser branco. Ficou tão azul quanto o mar e eu pude perceber tantas sensações que nem sabia que existiam até estar ali. Havia tantas espécies de flores que eu não conseguia sentir o cheiro de cada uma individualmente. Eu tentava processar toda aquela informação — até um segundo atrás eu estava no ventre de minha mãe e agora estava no topo do morro mágico. Aqui era seguro, a água cristalina não podia me alcançar.
Eu estava cheirando uma tulipa quando uma voz doce e acolhedora ecoou no horizonte.
— É um prazer te encontrar aqui, Elias. — Uma senhora de cabelos grisalhos, olhos azuis e pele clara falou, me tirando do paraíso que era minha mente imaginária.
— Eu te conheço? — Eu disse em um tom desconfiado.
— Ainda não, mas um dia todos me conhecerão. Meu nome é Maria.
— Onde eu estou?
— Não sobre onde estás, mas sim onde vais chegar. Não te entristeças, sou apenas a mensageira da profecia.
— Profecia? — Interroguei.
— Sim, Elias! Antes do ar entrar em seus pulmões, a ti foi concedida a profecia mais bela de todas. Aquilo que te fará mais humano, mais sensível, mais você! Eu prevejo em seu caminho muitos desafios, muitas lições. Mas não temas, estarei contigo em todo o seu caminhar. Todo esse sofrimento terá um propósito.
— Por que me tiraste do ventre de minha mãe para me trazer algo tão tenebroso? Onde está sua piedade? Por que fizeste isto comigo? — Indaguei com toda minha força, que nem sabia de onde vinha. — Afinal, Maria, qual é a minha profecia?
— A ti foi dado o dom de amar. Você amará a todos em sua volta, se apaixonará quase todos os dias, às vezes pelas mesmas pessoas, às vezes nem será por pessoas, mas por uma flor, ou uma árvore bonita, uma arte em um museu, ou pela música. Você será um dos amantes, mas temerosos, da música, da arte, da natureza, dos animais, das pessoas.
Eu dei um sorriso extraordinário. Afinal, Maria me tirara do ventre de minha mãe para me presentear com o dom mais magnífico: o amor.
— Maria, essa é a profecia mais linda de todas.
— Nem tudo na vida são flores… Com sua profecia, virá sua maior maldição: você nunca se sentirá amado. Você amará intensamente, mas nunca sentirá esse amor. Em seu peito só haverá vazio.
Me joguei ao chão. Eu queria chorar, eu queria muito gritar. Mas, por algum motivo, a minha voz não saía. Eu queria falar algo. Queria suplicar, queria implorar. Mas pelo jeito a profecia já estava selada, pois em meu peito eu já não sentia mais o amor. Eu amava tudo e a todos. Mas, desde ali, não acreditava que um dia alguém poderia me amar. Minha última tentativa foi convencer Maria.
— Estou de joelhos, por favor! Eu não quero dinheiro, só quero alguém que aproveite minha companhia. — Pela primeira vez consegui chorar.
— Não entendes, esse é seu destino, esse é quem você é. Não posso fazer nada. Você será interestelar. Você guardará o segredo do cósmico, escreverá com o coração. Muitas pessoas nunca vão te aceitar, isso faz parte da sua profecia. Mas algumas pessoas irão, você aprenderá a escolher as pessoas certas.
— Maria, você não entende. Do que adianta tudo isso se eu não tiver a validação de alguém? O amor de alguém, o abraço, o beijo, o toque, o carinho, o sentimento. Me dê uma última chance.
— Sua profecia tem mais a te ensinar do que você imagina. A validação que procuras não é do outro. Você nem nasceu ainda e já está desesperado para sentir o amor das pessoas. Se queres tanto assim, lhe concedo uma bênção. Sua profecia poderá ser quebrada. Se você acolher e for acolhido do jeito que és, o beijo do amor verdadeiro poderá quebrar sua maldição. E então a profecia será desfeita, trazendo ao seu coração o que mais deseja.
E então, o que era um morro virou uma ilha. Estávamos cobertos por aquela água cristalina. O canto dos pássaros louvava a bondade de Maria. Aquela figueira nos abrigava de modo acolhedor. No entanto, a água tomou conta de todo o local, invadindo nosso solo sagrado.
— Elias, você precisa ir. Está na hora! Você precisa ir agora. — Maria disse em um abraço.
Naquele abraço pude sentir, pela primeira vez, o amor mais puro que existe: o amor de mãe. As águas ficaram agitadas, formando um enorme tsunami. Ela tomou cor, densidade e agitação.
— Um último conselho? — Perguntei com os olhos cheios de esperança.
— Lembre-se, o amor vencerá o ódio.
O tsunami veio em minha direção. Eu não senti medo, me senti livre. A água tomou meu peito. Mas não doeu, pois minha maior dor será caminhar para sempre à procura do amor verdadeiro. Minha última esperança de que minha maldição seja quebrada para que finalmente esteja livre daquela profecia.
De repente tudo ficou claro de novo. Eu abri meus olhos, havia uma luz vindo em minha direção, então acordei. Eu estava engasgando com minha própria saliva.
Capítulo 6 – Realidade
Elias nunca soube a diferença entre a realidade e a ficção que inventava em sua cabeça. Naquele sonho, ele sentiu com tanta emoção cada palavra de Maria que, por um momento, duvidou de sua imaginação, acreditando, inclusive, que talvez fosse amaldiçoado. Sempre sentiu em seu peito que talvez realmente nunca fosse amado, não na mesma medida em que ele amava.
Liam sempre fora amado, mas nunca amara com intensidade. Pensava que jamais se sentiria assim por alguém. Bom, o destino cruzou os caminhos dos dois. No começo, ele se sentiu ameaçado com toda a intensidade de Elias. O mundo dele era tão colorido, tão vibrante, tão intenso… Ele percebia que, em seu meio, não havia muitos iguais a ele. Sentia medo de se entregar, medo de perder sua masculinidade. Como ser autêntico quando seu companheiro era a própria autenticidade?
O dia começou diferente, talvez fosse a energia se renovando depois da tempestade, ou talvez um modo do universo anunciar que algo tenebroso estava por vir…
— Elias, acorda! — disse Liam, chacoalhando o garoto.
— Por Taylor Swift! Como tens coragem de me acordar às seis da manhã em pleno sábado? Logo depois de quase não conseguir dormir à noite.
— Me desculpa, é que podemos perder o ônibus — respondeu Liam em tom calmo.
— Verdade! Meu Deus, esqueci que estamos em um acampamento.
— Elias, preciso te contar algo — disse Liam, aproximando-se do rosto de Elias, que permanecia intacto, ainda sonolento na cama.
— Liam, por favor! Não me conte nada antes de escovar os dentes… Que bafo! — Elias disse, quebrando totalmente o clima.
Liam assoprou seu próprio hálito na mão e confirmou a hipótese de Elias: de fato, estava com um hálito horrível. Depois da conversa, os meninos se arrumaram rapidamente para pegar o ônibus. Aqueles dias no acampamento fizeram bem para ambos. Pena que tudo que começa muito bem, às vezes acaba muito mal.
— Elias, se apresse!
— Estou correndo o mais rápido que posso.
De repente, Liam teve a pior ideia que alguém poderia ter naquela situação. Pegou Elias no colo e, mesmo com o peso do garoto em seus braços, manteve uma velocidade constante. Elias sentia uma vergonha súbita crescer em seu peito, mas não conseguia parar de imaginar o quanto aquela cena lembrava uma música da Taylor — principalmente aquela parte que se repete: The Man. Liam, no entanto, não sentiu vergonha, nem medo do que os amigos pensariam, porque, na companhia de Elias, ele não precisava da validação de mais ninguém.
Entraram juntos no ônibus, lado a lado. Perceberam os olhares, o burburinho se formando e até mesmo a vergonha mórbida que lhes pesava nos peitos. Sentaram-se juntos. Liam segurou a mão de Elias. Suas pernas tremiam, e então Elias colocou a mão sobre elas e disse:
— Independente do que vão pensar, eu sei que você é uma boa pessoa. E boas pessoas não têm medo de serem elas mesmas. Você foi autêntico. Neste acampamento, você se abriu, experimentou coisas que nunca pensou serem possíveis. Você é mais forte do que imagina, Liam.
Liam sentiu, pela primeira vez em sua vida, um alívio que certamente o fez se enxergar de outra forma. Sempre tivera medo de falar porque, ao falar, abrimos espaço para o julgamento, para o medo, ficamos vulneráveis. Mas percebeu que se abrir para as pessoas não o tornava fraco; pelo contrário, precisou de mais coragem para se abrir do que para permanecer calado. É muito mais fácil se calar do que desabafar seus medos e inseguranças. Pela primeira vez na vida, Liam tinha alguém que pudesse escutá-lo.
Elias, pela primeira vez, encontrou alguém com quem pudesse falar. Para ele, era mais fácil falar sobre tudo e todos do que permanecer em silêncio. Pois, quando se calava, sua mente gritava. A ansiedade surgia, ele até tentava disfarçar, mas era notório que precisava de validação, que se apegava com facilidade, que tinha gostos pessoais considerados infantis ou supérfluos pelos outros… No fundo, desejava, mais do que tudo, ter alguém que gostasse de sua companhia, alguém com quem pudesse falar sobre Taylor Swift ou que simplesmente o abraçasse quando o mundo fosse cruel demais.
Eles eram almas gêmeas. Pena que perceberam quando já era tarde demais.
Capítulo 7 – Triste fim
Elias estava repousando nos braços de Liam quando sentiu um impacto enorme. O ônibus havia colidido com a barreira de contenção em uma curva sinuosa. Com a força do impacto e a alta velocidade, o motorista perdeu o controle e o veículo capotou.
Tudo começou a girar repentinamente; os gritos eram ensurdecedores. Liam abriu os olhos com dificuldade. Estava um pouco ferido, mas o cinto de segurança salvou sua vida. Com dor, analisou ao redor: havia destroços por toda parte, e as malas dos alunos estavam espalhadas pelos assentos. Pessoas gritavam os nomes umas das outras para se certificar de que ainda estavam vivas. Liam olhou para o lado e pôde ver que Daniel e Anne estavam bem. Mas, ao procurar Elias, não o encontrou. Automaticamente, entrou em desespero. Sua mente imaginou mil situações diferentes. Ele retirou o cinto de segurança, juntou todas as forças e gritou:
— Elias! Cadê você? Alguém viu o Elias??
Todos os alunos gritaram seu nome, mas nenhuma resposta veio. A locomoção era difícil, pois o ônibus estava deitado lateralmente. Anne conseguiu responder:
— Liam, eu vi o sapato dele lá na frente.
Liam imediatamente se levantou e começou a escalar os assentos para alcançar a parte dianteira do veículo. Ele estava determinado a encontrar a pessoa que mais lhe importava. Quando se aproximou, viu o corpo de Elias ensanguentado. O desespero tomou seu coração. Ele tocou o rosto do garoto e suplicou:
— Por favor! Fica comigo. — Ele segurou a mão de Elias. — Elias, volta! — Chacoalhou o corpo do menino, que continuava imóvel.
Pela posição em que o corpo estava, Liam presumiu que ele havia sido arremessado para frente, provavelmente sem o cinto.
— Elias, fala comigo! Me responda, por favor!
Naquele momento, Liam teve certeza: ele se apaixonara por Elias desde o instante em que o conheceu. Adorava ouvi-lo falar por horas, começou a gostar de tudo que ele gostava, preocupava-se excessivamente… E, ao perdê-lo, descobriu que o amava de verdade. Arrependido, chorou e suplicou. Isso não podia ser o fim; precisava haver outro final. Talvez, depois do universo, eles se reencontrassem. Talvez, em outro plano, nunca tivessem se desencontrado. Liam abraçou o corpo do garoto.
— Elias, eu te amo! — disse Liam, e beijou os lábios do garoto.
Elias sentiu seu coração bater mais forte e despertou.
— Acho que minha maldição foi quebrada — sussurrou.
— Elias, você está vivo? — Liam perguntou, com os olhos cheios de esperança.
— Bom… acho que quase…
— Por que tirou o cinto?
— Ele estava me atrapalhando, eu queria ir abraçado com você — explicou Elias, tossindo e expelindo um pouco de sangue.
— Seu bobinho — disse Liam, tocando seu rosto.
— Eu te amo.
— Eu também te amo, Elias!
— Pena que só conseguimos dizer isso agora.
— Você não tem ideia do quanto eu queria ter dito antes.
— Liam, me promete uma coisa! Faça seu coração parar de chorar. Não tenha medo de ser você mesmo, fale com o coração. Realize seus maiores sonhos, viaje, curta sua vida com quem você mais ama. Forme uma família e cuide de si.
— Elias, eu prometo! Vou fazer todas essas coisas com você.
— Acho que é tarde para mim — disse Elias, passando a mão no nariz sangrando. Tive uma boa vida, bons amigos! Mas nunca pensei que viveria um grande amor, daqueles que vemos no cinema, nos livros… Mas você chegou à minha vida e mudou minha visão sobre o amor.
— Fica comigo — implorou Liam, chorando.
— Almas gêmeas nascem para se encontrarem, não para ficarem juntas — disse Elias, tocando o rosto de Liam.
Elias começou a sangrar cada vez mais. Sentia todo o corpo arder, mas não sentia dor abaixo da cabeça. Percebeu que o fim se aproximava, mas estava nos braços do amor de sua vida. Sentiu-se realizado, único e amado. Seus olhos começaram a se fechar, uma paz preencheu seu peito e uma última lágrima caiu.
— Elias, por favor! Não vá, fica comigo! Não faça meu coração chorar, meu amor. Fica! Eu não posso te perder. Você é importante, eu não quero viver sem você!
Liam sentiu uma dor que nunca havia experimentado. Todo seu corpo parecia se esvair. Ouviu choros e lamentos de pessoas ao redor. Sentiu raiva, medo, dor. Ajoelhou-se e gritou:
— Estou de joelhos, por favor! Não!! Não pode ser! Eu preciso de ti!
No final, quase sem forças, Liam sentiu seu coração parar. Ele não suportou a dor de ver seu melhor amigo, seu primeiro amor, a pessoa que iluminava seus caminhos, morrer. Os dois morrem no final.
Capítulo 8 – Depois do Universo
“Esse não pode ser o fim
Tem que existir outra versão
Depois do universo
Além da nossa dimensão
E eu te vejo lá”
(Depois do Universo GIULIA BE)
Liam acordou no ônibus, suado e desesperado. Era tudo mentira? Um sonho? Nada havia sido real… exceto Elias, acordado em seus braços, sem o cinto.
— Pelo amor de Deus, coloca esse cinto agora!! — suplicou Liam.
— Calma, eu só tirei porque queria dormir com você.
— Seria loucura se eu dissesse que acabei de nos ver morrendo?
— Sim… muita loucura — respondeu Elias, acomodando-se nos braços de Liam.
— Elias, eu te amo! — Liam desabafou. — Não posso mais esperar o momento certo para dizer isso, pois talvez ele nunca chegue. Você coloriu meu mundo, mudou minha vida em tão pouco tempo. Não quero viver sem você.
E, sem pensar, Liam beijou Elias.
Elias retribui o beijo com toda sua força. Naquele instante, não havia medo de julgamento; não havia mais ninguém no mundo, apenas os dois.
— Bom, não sei com o que você sonhou… mas eu também te amo — disse Elias, sorrindo. — Obrigado por quebrar minha profecia. Você me salvou de algo que eu nem sabia que precisava ser salvo. Seu beijo curou minha maldição… e agora posso ser feliz.
Eles se abraçaram, e a viagem continuou. Mas algo havia mudado. Depois daquele sonho, Liam começou a se abrir mais, aprendendo que nem sempre haveria outra chance. Elias aprendeu a ouvir mais. Juntos, tornaram-se inseparáveis, aprendendo uma lição de agosto a agosto.
No futuro, casaram-se, adotaram um filho, um gato e um cachorro. E viveram felizes para sempre.
Mas e você? Já se declarou para quem ama? Sua vida acontece agora, não depois. Viva intensamente, sem arrependimentos. O dinheiro você ganha depois, mas o tempo… o tempo passa, e não volta.
Às vezes você deseja que a segunda-feira acabe logo e que a sexta chegue, mas quando percebe, sua vida já passou. Viva sem medo: fale alto, ria demais, fique até tarde em uma festa, dance, beba,mas com moderação. Dance como uma loira americana, curta uma noite com seus amigos, saiba que a melhor forma de aprender é vivendo.
Espero que você tenha uma vida incrível.
Com Carinho, Bruno Zampirolli. 🌊



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