Estou de joelhos pedindo que a profecia seja quebrada. Em um jardim tranquilo e florido eu descansava, ainda no ventre de minha mãe. Debaixo de uma figueira, ela repousava tranquilamente. Ela estava serena, seu ventre era aconchegante e, em meio àquela calmaria, uma folha de figueira caiu em sua barriga. Ali eu o senti, eu pude prever todo o meu futuro. Eu fui amaldiçoado! A profecia tinha sido selada. Eu não podia fazer nada.
De repente eu estava em um lugar diferente. O céu estava claro, lembro de estar em uma rua apertada e pouco movimentada. Caminhando em uma estrada densa e muito íngreme, no céu não havia nuvens nem cor. De repente a estrada se encheu de água. A água era pura, cristalina e não podia me ferir. Eu tinha tanta sede que podia beber daquela fonte.
Quando cheguei ao topo daquele morro, encontrei uma árvore. A mesma figueira em que minha mãe repousava. O céu deixou de ser branco. Ficou tão azul quanto o mar e eu pude perceber tantas sensações que nem sabia que existiam até estar ali. Havia tantas espécies de flores que eu não conseguia sentir o cheiro de cada uma individualmente. Eu tentava processar toda aquela informação — até um segundo atrás eu estava no ventre de minha mãe e agora estava no topo do morro mágico. Aqui era seguro, a água cristalina não podia me alcançar.
Eu estava cheirando uma tulipa quando uma voz doce e acolhedora ecoou no horizonte.
— É um prazer te encontrar aqui, Zampirolli. — Uma senhora de cabelos grisalhos, olhos azuis e pele clara falou, me tirando do paraíso que era minha mente imaginária.
— Eu te conheço? — Eu disse em um tom desconfiado.
— Ainda não, mas um dia todos me conhecerão. Meu nome é Maria.
— Onde eu estou?
— Não sobre onde estás, mas sim onde vais chegar. Não te entristeças, sou apenas a mensageira da profecia.
— Profecia? — Interroguei.
— Sim, Zampirolli! Antes do ar entrar em seus pulmões, a ti foi concedida a profecia mais bela de todas. Aquilo que te fará mais humano, mais sensível, mais você! Eu prevejo em seu caminho muitos desafios, muitas lições. Mas não temas, estarei contigo em todo o seu caminhar. Todo esse sofrimento terá um propósito.
— Por que me tiraste do ventre de minha mãe para me trazer algo tão tenebroso? Onde está sua piedade? Por que fizeste isto comigo? — Indaguei com toda minha força, que nem sabia de onde vinha. — Afinal, Maria, qual é a minha profecia?
— A ti foi dado o dom de amar. Você amará a todos em sua volta, se apaixonará quase todos os dias, às vezes pelas mesmas pessoas, às vezes nem será por pessoas, mas por uma flor, ou uma árvore bonita, uma arte em um museu, ou pela música. Você será um dos amantes, mas temerosos, da música, da arte, da natureza, dos animais, das pessoas.
Eu dei um sorriso extraordinário. Afinal, Maria me tirara do ventre de minha mãe para me presentear com o dom mais magnífico: o amor.
— Maria, essa é a profecia mais linda de todas.
— Nem tudo na vida são flores… Com sua profecia, virá sua maior maldição: você nunca se sentirá amado. Você amará intensamente, mas nunca sentirá esse amor. Em seu peito só haverá vazio.
Me joguei ao chão. Eu queria chorar, eu queria muito gritar. Mas, por algum motivo, a minha voz não saía. Eu queria falar algo. Queria suplicar, queria implorar. Mas pelo jeito a profecia já estava selada, pois em meu peito eu já não sentia mais o amor. Eu amava tudo e a todos. Mas, desde ali, não acreditava que um dia alguém poderia me amar. Minha última tentativa foi convencer Maria.
— Estou de joelhos, por favor! Eu não quero dinheiro, só quero alguém que aproveite minha companhia. — Pela primeira vez consegui chorar.
— Não entendes, esse é seu destino, esse é quem você é. Não posso fazer nada. Você será interestelar. Você guardará o segredo do cósmico, escreverá com o coração. Muitas pessoas nunca vão te aceitar, isso faz parte da sua profecia. Mas algumas pessoas irão, você aprenderá a escolher as pessoas certas.
— Maria, você não entende. Do que adianta tudo isso se eu não tiver a validação de alguém? O amor de alguém, o abraço, o beijo, o toque, o carinho, o sentimento. Me dê uma última chance.
— Sua profecia tem mais a te ensinar do que você imagina. A validação que procuras não é do outro. Você nem nasceu ainda e já está desesperado para sentir o amor das pessoas. Se queres tanto assim, lhe concedo uma bênção. Sua profecia poderá ser quebrada. Se você acolher e for acolhido do jeito que és, o beijo do amor verdadeiro poderá quebrar sua maldição. E então a profecia será desfeita, trazendo ao seu coração o que mais deseja.
E então, o que era um morro virou uma ilha. Estávamos cobertos por aquela água cristalina. O canto dos pássaros louvava a bondade de Maria. Aquela figueira nos abrigava de modo acolhedor. No entanto, a água tomou conta de todo o local, invadindo nosso solo sagrado.
— Bruno, você precisa ir. Está na hora! Você precisa ir agora. — Maria disse em um abraço.
Naquele abraço pude sentir, pela primeira vez, o amor mais puro que existe: o amor de mãe. As águas ficaram agitadas, formando um enorme tsunami. Ela tomou cor, densidade e agitação.
— Um último conselho? — Perguntei com os olhos cheios de esperança.
— Lembre-se, o amor vencerá o ódio.
O tsunami veio em minha direção. Eu não senti medo, me senti livre. A água tomou meu peito. Mas não doeu, pois minha maior dor será caminhar para sempre à procura do amor verdadeiro. Minha última esperança de que minha maldição seja quebrada para que finalmente esteja livre daquela profecia.
De repente tudo ficou claro de novo. Eu abri meus olhos, havia uma luz vindo em minha direção. Podia escutar uma voz feminina desesperada.
— Meu bebê está bem, doutora? — Uma mulher gritou.
— Sim, ele apenas engoliu a água do parto. Nada que um tapinha não resolva.
E então o tapa da vida veio e ardeu em minhas costas. Eu respirei pela primeira vez. Foi como um sonho e, hoje, após anos, ainda sinto a voz da profecia em meus ouvidos. Todos os dias peço que ela seja quebrada. Quando a dor vem, me lembro do que Maria disse: Lembre-se, o amor vencerá o ódio.
Com Carinho, Bruno Zampirolli 🌊



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