Estou no fundo de uma piscina, prestes a sentir o doce abraço da morte. Sinto todo o meu corpo querendo lutar. Sinto a dor em meu peito, tento puxar o ar, mas apenas água invade meus pulmões. A dor é insuportável, meus olhos se arregalam, minha pupila se dilata, meus órgãos pedem oxigênio. Meu corpo, finalmente, se cansa de brigar com a morte e a abraça. De repente, estou no fundo e uma calma me invade, se eleva para o infinito. Tudo fica preto, meu corpo nem pede mais por ar, meus pulmões aceitaram seu trágico fim, tudo fica parado. Meus olhos se fecham e, de repente, sinto uma dor em meu peito, sinto toda a água que engoli sendo expelida para fora. O ar volta aos meus pulmões e, com ele, a dor. Dou um suspiro fundo e choro logo depois. Triste não pela dor, mas por ter voltado a viver.
Minutos depois, outra criança se afoga. Passa menos tempo no fundo do que eu e, em questão de minutos, sua vida se foi. Porém, ela não voltou a respirar. É engraçado como a morte funciona: eu voltei e ela não. Me culpo pelo resto da vida, penso que, se tivesse morrido, ela teria alguma chance. Talvez os adultos tomassem mais cuidado, ou a excursão tivesse voltado para casa após minha morte. Mas isso não aconteceu.
Anos depois, sinto uma dor de cabeça horrível. Uma sensação ruim me invade, toma conta do meu corpo. Sozinho em casa, o grito de socorro nem consegue escapar. Novamente caio ao chão e sinto a calmaria e a dor. Uma sensação estranha invade minha cabeça, dessa vez realmente pensei que seria meu fim. Porém, não passava de uma crise profunda de enxaqueca, seguida por desmaio repentino e pela dor excessiva. Desmaiar é como morrer por alguns segundos, porém a sensação boa acaba quando sua consciência volta e você percebe que não era o doce abraço da morte.
Você percebe que a morte não é uma coisa boa quando vê alguém morrendo bem na sua frente e não pode fazer absolutamente nada. Minha bisavó morreu de infarto. Estava tomando banho quando uma dor surgiu em seu peito. Em poucos segundos, ela estava morta. A pessoa que eu mais confiava, que guardava meus segredos, que me ensinava os antigos costumes e como a vida funciona, morreu. Poucos anos depois, seu filho, meu avô estimado, morreu do mesmo mal, no mesmo banheiro. Eu vi sua vida esvaindo bem na minha frente. Outra pessoa que me ensinou o sinônimo de bondade, coragem e boas ações. Eu desejei, mais do que tudo, que seu coração voltasse a bater, mas isso não aconteceu e, em vez disso, outra vez eu estava no chão.
Outro desmaio, dessa vez mais profundo, mas a dor não estava em minha cabeça, estava em meu coração. Por um momento, pensei que tudo aquilo tinha acabado, que foi tudo um sonho, que não passava de um pesadelo. Eu acordei e me deparei novamente com a realidade. Dessa vez, de pé novamente. Eu não caí, eu gritei. Eu chorei. A dor invadiu meu peito de maneira tão profunda que até hoje sinto as cicatrizes.
Poucos dias atrás, por um momento de desatenção, uma carreta enorme quase passou por cima do meu carro. Novamente não senti medo de morrer, mas de matar meu colega que estava sentado ao meu lado.
No fundo, todos temem a morte: se não for a sua, será a de quem você ama. Todos temem o sofrimento. Um descuido pode arruinar toda a sua vida. Um vacilo e aqueles que você ama morrem. A morte chega para todos, é uma verdade que todos sabem, porém ninguém está preparado quando ela chega. Tentamos imaginar outra versão, outra vida. Um relance de criatividade nos torna imortais.
Quando o doce abraço da morte retornar aos meus braços, eu não quero que ninguém fique triste, pois finalmente meu coração estará em paz. Eu viverei para sempre, pois cada história que escrevo, cada poema, cada livro, cada conto contém um pedacinho de mim. Quando a saudade bater, leia minhas obras, me visite nesse mundo que crio com tanto carinho. Estou no coração de todos que leem meu tormento. Viva a sua vida enquanto você pode, ela é curta demais para viver para o outro. Sua vida está acontecendo agora, não depois: agora! Você já disse um “eu te amo” sincero? “Eu não quero viver sem você, quero morrer ao seu lado”? Você já se declarou para a pessoa que ama? Está esperando ela se for para se arrepender? Corra, corra bem rápido, coma tudo que deseja, viaje logo para aquele lugar dos sonhos, compre logo esse carro, tenha logo esse filho. O momento perfeito não existe, a pessoa perfeita não chegará.
A única certeza da sua vida é que um dia você irá morrer. O que talvez seja bom, porque ninguém quer viver para sempre. Porém, todos querem se sentir vivos, amados, desejados, atraídos, acariciados. Espero que você tenha uma boa vida.
Minhas condolências.
Bruno Zampirolli.



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