Vestígio

Published on

em

 Dedico esse texto para todos que tenham um vestígio de um amor não correspondido.❤️‍🔥

John Carter conheceu Peter Sullivan durante a Segunda Guerra Mundial. Não sabia exatamente o que sentir, era tudo muito novo, muito barulhento, muito cru. No primeiro dia de apresentação, os soldados estavam todos enfileirados, em pé, completamente pelados, prontos para a inspeção médica. 

    John não entendia a razão de tamanha vergonha… até sentir na pele. Ou melhor: até ver. Aquela grande demonstração de nudez o deixou deveras desconcertado. Era corpo demais, olhos demais, e ele não sabia onde olhar. O rubor tomou conta do seu rosto  e do corpo inteiro, aliás. Um calor estranho que subia e descia feito um trem desgovernado. Era um homem baixo, de 1,71 de altura, pele clara demais, ruivo do tipo que parece ter sido desenhado em traços leves, com sardas espalhadas como poeira solar. E o pior: sem um fio de pelo no corpo. Nem barba, nem nada. Liso como uma estátua de mármore. E isso o fazia se sentir pequeno. Incompleto. Invisível..

Então, o último soldado entrou na sala. Atrasado, mas sereno.

Peter.

Alto. 1,85 de altura. Corpo atlético. Ombros largos. Pele dourada de sol, barba densa e bem aparada. Cabelos loiros como os de um querubim desgarrado do céu, e olhos de um azul acinzentado, como céu nublado antes da tempestade.

Mesmo atrasado, Peter parecia alheio à tensão da sala. Havia um silêncio particular em torno dele,  como se os sons da guerra ainda não o tivessem alcançado.

Todos vocês têm um papel fundamental para as forças armadas dos Estados Unidos, — anunciou o comandante com rigidez militar. — Estão aqui para se tornarem homens e cumprirem seu papel na sociedade.

O comandante fitou Peter com um olhar cortante.

Jovem, a responsabilidade com esse batalhão começa com o simples fato de chegar no horário combinado.

Peço desculpa, senhor. Não vai acontecer de novo. — respondeu Peter, com voz trêmula, mas firme.

Nome?

Peter Sullivan, senhor.

E está esperando o quê para tirar a roupa, Peter?

Silêncio.

Depois, uma onda de risos irrompeu. Não apenas pela frase com duplo sentido do comandante, mas porque Peter, obediente, abaixou as calças sem hesitar e  esqueceu de cobrir suas “bagagens”, como os outros. Todos riram. Todos, menos dois. Peter e John.

Peter notou o olhar saliente de John. E John, por sua vez, não conseguiu esconder a fascinação pelo corpo nu à sua frente. Tentou desviar o olhar, mas era tarde demais: seu próprio corpo o entregou. Involuntariamente, sentiu seu sangue descer para regiões que já não estavam sob  controle. A ereção surgiu como um traidor, dura e evidente. John desejou desaparecer ali mesmo, mas o uniforme ainda não tinha sido devolvido.

Foi salvo por um caos: um dos soldados desmaiou durante a inspeção, e todos foram liberados para os dormitórios.

John correu. Pegou a primeira toalha que viu e se enrolou. Seu rosto estava em chamas. Seu coração, uma bateria militar. Ele não entendia  ou talvez entendesse, só não queria aceitar.

Para o azar de John ou talvez sorte Peter, ainda pelado, foi atrás dele. Curioso. Intrigado.

Está tudo bem, soldado? — perguntou, sorrindo de leve, sem malícia.

John gaguejou algo entre um “sim” e um “deixa eu morrer aqui mesmo”. O olhar de Peter era tão profundo quanto aquele sorriso de canto. John sentia o clichê se materializar: rosto corado, mãos trêmulas, o corpo querendo confessar tudo o que a boca não podia. John não podia acreditar na naturalidade que o loiro esbanjava suas vantagens expostas assim em jogo. Ele estava completamente fascinado pelo Sullivan, o que aumentava ainda mais a tensão no ar e pior ainda aumentava sua rigidez em seus países baixos. Como se toda aquela situação não fosse mais do que constrangedora. 

Peter, por sua vez, observava em silêncio. Nunca tinha visto alguém tão… verdadeiro. Tão entregue. Ele obviamente percebeu a tensão no garoto e para provocá-lo ainda colocou a mão em seu ombro, aumentando ainda mais a vergonha do garoto. O ruivo, com sua pele sensível, ficou tão vermelho, quanto um pimentão. John não entendia tanta intimidade vindo de um loiro pelado que acabara de conhecer. 

Com o tempo, tornaram-se inseparáveis.

Treinavam juntos. Comiam juntos. Riam juntos. Quando estavam a sós, John se transformava. Suas piadas bobas surgiam em cascata, e Peter ria de todas, até das que não faziam sentido.

No tanque de guerra, sozinhos, o mundo desaparecia. Em meio ao cheiro de óleo e pólvora, nascia algo tênue. Algo íntimo.

Se um velho te oferecesse dez milhões de dólares para gastar como quiser, mas um caracol imortal te perseguiria pra sempre e se ele encostasse em você, você morreria na hora… você aceitaria o dinheiro? — John disparava suas perguntas malucas enquanto Peter dirigia.

Peter apenas ria.

Você é louco.

Mas um louco que você ama.

Peter virou o rosto. Não respondeu.

Não foi rápido. Foi silencioso.

Peter sempre parecia distante dos outros soldados. Reservado. O tipo que observa mais do que fala. Mas com John, algo amolecia. Talvez fosse o jeito tagarela e meio atrapalhado do ruivo. Talvez fosse o sorriso torto que aparecia sempre que falava besteira.

John era curioso, criativo, ansioso, o tipo que pensa demais. Adorava contar histórias improváveis durante as patrulhas. Peter escutava tudo com um meio sorriso, como quem gosta do som, mesmo sem entender a letra.

No tanque de guerra, tinham paz. Lá, só existia o ronco do motor, o cheiro de metal quente e a voz de John enchendo o espaço.

Se você pudesse escolher entre salvar o mundo ou salvar uma pessoa que ama, o que faria?

Você tem umas perguntas bem complicadas, John. — Peter respondia.

É o que me impede de surtar com tudo isso aqui. — John dizia, sorrindo, mesmo com os olhos cansados. 

— Bom, já que você perguntou… Eu jamais deixaria você morrer, mas você teria outra preocupação: Você não teria mais um mundo, pois eu escolheria salvar você. 

O  silêncio de John dizia mais de mil palavras. O silêncio não era algo ruim para os dois. Era reconfortante, só o fato de não dizer nada mas estar na presença de Peter, fazia o coração de John se acalmar. 

Noites sem estrelas 

As noites no alojamento eram sempre iguais: frias, barulhentas, e cheias de gritos abafados de saudade e medo. Mas naquela noite, Peter não conseguia dormir. John também não. As camas separadas por uma fina distância pareciam quilômetros.

— Tá acordado? — sussurrou John, encarando o teto.

— Sempre. — Peter respondeu, virando-se de lado, a voz mais baixa que um pensamento.

— Você acha que a gente vai sobreviver?

Silêncio. Depois um suspiro.

— Não sei. Mas se a gente morrer, quero que seja feito algo bom. Quero morrer com alguém que me faça sentir que valeu a pena viver.

John se virou para encará-lo. No escuro, apenas silhuetas.

— Eu me sinto vivo quando tô contigo.

Peter não respondeu. Mas John juraria ter visto um sorriso.

Veio a chuva.

Numa patrulha, uma tempestade os surpreendeu. John escorregou, caiu de costas na lama. Peter correu para ajudá-lo. Encharcados, rindo, ele estendeu a mão. Um toque demorado. Um olhar que durou mais que o tempo.

Se fosse um filme, eu te beijava agora. — disse Peter, baixinho.

Mas é guerra. — completou John, com um sorrisinho triste.

— E mesmo na guerra eu ainda tenho você. Seu olhar, seu sorriso quando me ver, seu carisma, suas histórias malucas, sua risada escandalosa… É tudo isso e mais um pouco que me motiva a continuar batalhando. — Peter disse com serenidade. 

E ambos sabiam que aquilo ali… era muito mais que amizade. Talvez fosse conexão, John sentiu cada palavra e Peter sentiu o tempo parar e uma ideia louca surgiu quando ele sentiu cada gota de chuva tocar o seu rosto. A ideia de ter John por perto era algo mágico, ele faria qualquer coisa para vê-lo sorrir. O melhor de tudo é que Peter sempre sentiu que precisava ser um Homem com H maiúsculo. Mas perto de John ele podia ser ele mesmo e ele amava a forma que o John fazia ele sentir. 

E veio a dança.

Nessa noite tranquila e chuvosa, Peter ligou um rádio escondido. Tocava uma música lenta, quase esquecida pelo tempo.

Amigos também dançam? — perguntou Peter, estendendo a mão.

John aceitou.

   Sobre o tanque de guerra, debaixo da lua, eles dançaram devagar. Entre tropeços e risos abafados, seus corpos aprenderam um novo jeito de tocar. Foi a noite em que o amor deixou de ser silêncio e virou gesto. Esse simples gesto provou que a convivência com John estava fazendo muito bem para o Peter. Pois ele estava cada vez mais livre, leve e solto. Ele aprendeu as gírias de John, aprendeu a gostar de suas músicas, assistir filmes de romance, mesmo sabendo que John é um cara sensível e chora por tudo ele estava lá com um lenço e um ombro. Peter não chorava assistindo um filme de romance, mas ele chorou quando seu amigo chorou. Seu coração partiu em  vê-lo sofrer. Mas nessa noite, nesse dia. Era só os dois, em uma dança. 

Peter começou a escrever cartas. John via de longe, curioso, mas respeitava. Uma noite, Peter estava especialmente pensativo.

— O que escreve tanto?

— Memórias. Quero deixar algo, caso eu não volte.

— Pra quem?

Peter hesitou.

— Pra quem importa.

John sorriu, fingindo não ter entendido.

o convite

Quero que conheça minha família.

John parou.

Sua família?

John estava animado em conhecer os pais de Peter. Talvez isso significasse que a relação deles estava se concretizando. 

A frase foi um tiro. John sorriu, automático, tentando não desmoronar.

No dia do encontro, arrumou o cabelo. Tentou parecer apresentável. Queria impressionar.

Mas nada o preparou para o que viu.

Uma garotinha loira  correu para os braços de Peter. Chamou-o de “papai”.

A esposa com os braços abertos e com sua beleza admirável o beijou. Tocou seu rosto com carinho antigo. A outra mulher é linda. Ela nunca precisou usar bobes no cabelo, nunca sentiu insegurança com seu corpo, ela é o sinônimo de relacionamento aceitável para a família de Peter. A filha dele é igualitariamente linda e tem o sorriso do Peter. As cartas eram para elas, as mulheres da vida dele. O seu verdadeiro amor. 

John congelou. O mundo emudecido. Os olhos fixos naquela cena.

Peter olhou pra ele. Um pedido de desculpas sem palavras.

Depois disso, tudo mudou.

Você devia ter me contado. — disse John.

Eu te amo, John. Mas não assim.

Não me ama como eu te amo. Você me alimentou de esperança. Me deixou cair.

Eu não queria te perder.

Mas perdeu.

— Você não entende? Eu nunca escolheria você! Eu preciso delas, elas são minha vida. Eu posso até te amado, mas jamais escolheria você. Eu não posso, não foi assim que eu aprendi, não era assim que deveria terminar, podíamos ser amigos. Mas você nunca ficaria satisfeito. 

— Você que não entende! Poderíamos ter tido uma boa vida juntos, morar em uma cabana em um campo de flores, perto de uma cachoeira. Ver o sol nascer todos os dias e ainda estar juntos no pôr do sol, dia após dia, nós dois, um só coração, uma só vida. 

— Talvez em outro plano, John. 

Eles continuaram no mesmo batalhão. Missão após missão. Silêncios entrelaçados com lembranças que doíam. Peter ainda olhava para John quando achava que ninguém o via. E John ainda sonhava com a dança e a vida que poderia ter tido  na cabana.

Eles se amavam. Mas em outro plano.

E talvez seja isso.

Você não precisa beijar alguém para amá-la. Não precisa chamá-la de sua. Amor é o que sobra quando tudo falta.

Você pode amar alguém que já tem outra pessoa? Pode. Mas às vezes amar é deixar o outro viver a própria vida.

E se Peter escolhesse John? Será que seriam felizes?

Ou a felicidade de um custaria o trauma de outros?

Lembre-se: Se ele tem outra, então ele não está tão afim de você.

E se ele te trocou, é porque nunca esteve inteiro.

E se um dia você se apaixonar por alguém estando  comprometido por outra pessoa. Então fique com a segunda pessoa. Pois se você realmente amasse a primeira, jamais teria uma segunda. 

Em outro plano, John e Peter foram felizes.
Em outro plano, a guerra era menor que o amor.
Mas neste aqui… amar foi carregar o silêncio até o fim.

Com amor, Bruno Zampirolli.🍂

Deixe um comentário