Let Down

Published on

em

Alerta de conteúdo sensível
Este conteúdo aborda temas delicados como suicídio, sofrimento emocional e saúde mental.
Caso esteja enfrentando momentos difíceis, saiba que você não está sozinho. Procure apoio profissional ou entre em contato com o CVV – Centro de Valorização da Vida: 188 (ligação gratuita e confidencial, disponível 24h).
Cuide-se. Sua vida importa. 💛

Dedico esse texto a todos que acreditam que um dia criará asas e a minha banda favorita Radiohead, fonte de inspiração desse texto.

Era uma vez um patinho que nasceu sem asas. Desde o primeiro instante, sentia que havia algo de errado com ele. Não se encaixava. Era diferente. Era quebrado. Insuficiente. Menos. Menos capaz, menos bonito, menos perfeito… menos patinho.

Cresceu acreditando que um dia criaria asas, que talvez estivesse apenas atrasado em relação aos outros. Alimentava a esperança tímida e persistente de que, cedo ou tarde, seria como eles. Mas o tempo passava, e suas asas nunca cresciam.

O patinho estava exausto de esperar. Por que era tão difícil se enturmar? Conversar? Criar laços? Imaginar? Tudo doía. Não era apenas sobre as asas, era sobre uma ausência muito mais profunda. Ele só queria voar. Como os outros. Todos nadavam, andavam e voavam. Ele, por outro lado, tropeçava, afundava, se perdia. Tornou-se motivo de riso. Riam do seu jeito de andar, da sua falta de asas, da sua tentativa de ser o que não era. Ainda assim, mesmo entre risos cruéis, ele acreditava: um dia suas asas apareceriam.

Sua infância foi um território de silêncio e disfarce. Dizia que não queria brincar, que os outros eram desinteressantes. Mas, no fundo, lá no fundo ele só queria pertencer. Negava os convites porque, secretamente, acreditava que não merecia ser amado. Era o patinho feio. Sem asas. Sem liberdade. Sem amor.

Na vida adulta, amar se tornou um desafio ainda maior. Seus próprios pais não o amaram. E se nem eles foram capazes… como esperar amor de alguém? O patinho acreditava ser apenas uma criatura tola, esperançosa, tentando sustentar a fé no amor, mesmo sem nunca tê-lo experimentado. Escrevia sobre o amor. Falava sobre ele. Sentia amor por todos os patos ao redor, mesmo sem nunca ter sido amado de volta. Sua lista de amores impossíveis era longa  sempre com um espaço em branco esperando o próximo nome que jamais corresponderia.

Cansado de esperar, cansado de acreditar, o patinho teve uma ideia. Uma última ideia. Talvez, enfim, libertadora. Subiu até o penhasco mais alto. Correu com tudo que tinha, e saltou.

E então… caiu.

Na queda, entendeu: as asas sempre estiveram lá. Ocultas, invisíveis, silenciadas. Memórias antigas lhe invadiram como um sopro: o vento no rosto, a liberdade no peito. Finalmente, ele voava. Finalmente, realizava o seu sonho. Uma lágrima escorreu. A queda ainda era certa. Mas ele não se arrependia. Pela primeira vez, sentia-se vivo. Sentia que pertencia. Mesmo à beira do fim.

A queda era uma certeza  e isso o confortava. Nunca viveu de verdade, nunca foi amado de verdade, nunca voou… até agora. Era especial, mas de um jeito que doía. Faltando quinze segundos para o impacto, sua vida passou como um filme acelerado. E, por mais paradoxal que pareça, ele ansiava pelo fim. Suas lágrimas não cessavam. O corpo despencou. Mas o coração, estranhamente, encontrava paz.

Quinze segundos. Às vezes, é tudo o que se precisa para mudar tudo.

Nos últimos centímetros antes do chão, num lampejo quase divino, suas asas nasceram. Imensas. Fortes. Vivas. Ele podia voar. O que sempre desejou. O que mais queria. O que acreditava ser impossível. Mas então… algo mudou.

Com asas nos ombros, percebeu: o que o tornava diferente nunca foi a ausência delas. Era a dor de não ser incluído. O que ele mais queria era estar nas conversas, nas brincadeiras, das risadas,  não ser o motivo delas. Voar, afinal, nunca foi o objetivo real. Ele não queria ser igual. Queria ser aceito sendo quem era.

Então o patinho tomou uma decisão: não voar. Optou por continuar caindo.

E, no último segundo, sussurrou para si:

“A morte não é o fim. O fim não é o começo. E eu não preciso ser igual aos outros para ser aceito”

Com pesar, Bruno Zampirolli. 🪽

Read Next:


Deixe um comentário