O mundo do silêncio

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Hoje eu queria te convidar a ouvir.
Sim, ouvir.
Mesmo que o tema seja a surdez.

Porque a verdade é que o silêncio não é ausência — ele é presença de outra forma.
É linguagem própria, é escutada com os olhos, é um jeito de sentir o mundo que não passa pelo tímpano, mas pelo tato, pelo olhar, pela vibração das coisas.

A surdez não é um defeito, não é ausência de algo essencial.
Ela é só uma forma diferente de estar no mundo.

Quem vive a surdez aprende cedo que o mundo foi feito pra ouvir — mas nem sempre pra escutar.
As ruas são barulhentas, mas poucos param pra entender o que o outro precisa.
E, às vezes, tudo que alguém surdo quer é isso: ser compreendido, não consertado.

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é poesia com as mãos.
É um abraço em forma de gesto.
É um universo inteiro de expressividade que vai muito além do som.
E ainda assim, muita gente finge não ver — como se ignorar fosse mais fácil que aprender.

A surdez não limita. O que limita é o preconceito.
O capacitismo que diz: “coitado”.
A falta de acessibilidade que transforma simples tarefas em labirintos.
A ideia errada de que só ouve quem escuta com os ouvidos.

Mas o mundo tá mudando. Ainda bem.
Tem gente se levantando, se comunicando, se posicionando.
Pessoas surdas ocupando espaços, sendo protagonistas, quebrando estereótipos com a força de um gesto e a firmeza de um olhar.

Se você ouve, use seu privilégio para amplificar essas vozes.
Aprenda Libras. Esteja atento. Crie acessos.

E se você é surdo — saiba que o silêncio do mundo não te diminui.
Te torna raro.
Te torna potente.
Te torna poesia. Porque às vezes, no silêncio, é onde a alma grita mais alto.

   Como se comunicar com uma pessoa surda com respeito e empatia

Se comunicar vai muito além da fala. Quando você entende isso, começa a enxergar a beleza das múltiplas formas de se conectar. Se liga nessas dicas que fazem toda diferença no contato com uma pessoa surda:

1. Fique de frente para a pessoa

Nada de conversar de lado, pelas costas ou de longe. A comunicação visual é essencial — estar de frente permite que a pessoa te veja com clareza, leia seus lábios (se ela fizer leitura labial), entenda seus gestos e expressões.

2. Nunca passe entre duas pessoas surdas que estão conversando

Sabe aquela coisa de cortar o papo alheio? Aqui, literalmente, atrapalha a linha de visão e quebra a comunicação visual. É como se você desligasse o áudio de uma conversa entre ouvintes.

3. Fale com naturalidade — devagar, mas sem exagero

Falar devagar não é teatralizar. É articular bem as palavras, com calma e clareza. Não precisa gritar (gritar não ajuda e pode até soar ofensivo). Lembre-se: a ideia é facilitar a leitura labial ou complementar o uso da Libras, caso a pessoa use.

4. Use expressões faciais e gestos

Expressão conta tudo! Na Libras, por exemplo, o rosto ajuda a dar tom ao que está sendo dito. Um gesto com cara neutra é diferente do mesmo gesto com expressão de raiva, por exemplo. Então solta esse teatrinho facial aí — é libertador e eficaz.

5. Se a pessoa não entender, reformule — não repita igualzinho

Às vezes, repetir a mesma frase do mesmo jeito não resolve. Muda a ordem, usa palavras mais simples, aponta para objetos ou escreve. A ideia é ser flexível na forma de se comunicar.

6. Evite cobrir a boca

Nada de falar com a mão no rosto, mascarado (se puder evitar) ou virando de lado. Se a pessoa usa leitura labial, isso bloqueia completamente a comunicação.

7. Se for chamar a atenção, toque levemente no braço ou acene

Bater palmas perto da pessoa (mas não na cara dela, né?) ou encostar suavemente no braço é totalmente ok. Faz parte do jeito respeitoso de chamar a atenção no universo da surdez.

8. Aprenda o básico de Libras

Saber dizer “oi”, “tudo bem?”, “meu nome é…” em Libras já mostra respeito e interesse. E olha — aprender Libras é tipo abrir uma porta mágica para um novo universo de expressão.

9. Tenha paciência. A comunicação é uma ponte, não um túnel

Às vezes leva tempo. Às vezes tem mal-entendido. Mas quando há respeito, tudo se resolve. Quem ouve, quem não ouve — todos temos algo a dizer. E todo mundo merece ser compreendido.

 Dedico esse texto a todos que vivem no mundo do silêncio. Com carinho, Bruno Braga.  🌻

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