Meias Sujas 2: O Lado Que Ficou Molhado
Eu passei por eles, os rostos que conheciam meu nome e meus sonhos. Sentados à mesa, pareciam tão distantes, tão alheios. Não eram mais os amigos que eu conhecia, mas os fantasmas de um mundo que não entendeu o peso das minhas palavras.
Chamei, com a esperança de ser ouvido, de dividir a minha verdade. Queria que eles soubessem, que eles sentissem o que eu sentia. Mas eles, distraídos com o próprio universo, esqueceram de mim. Eu, no entanto, não pude me esquecer deles. Não pude deixar de observar como, na minha ausência, eles riam, como se não houvesse um motivo mais forte que a indiferença.
E ali, na calada de um momento que deveria ser meu, percebi: eu sou o que resta quando ninguém se importa.
Sai dali, mais sozinho do que nunca. A chuva parecia cair sobre mim como um castigo. Talvez fosse a vida tentando me dizer algo que eu ainda não entendi. Mas, antes que a raiva pudesse tomar conta de mim, algo mais apareceu — um pânico estranho, uma sensação de estar perdido entre o passado e o agora.
Na moto, eu quase morri. Quase. Como quem tenta fugir de algo que, no fundo, ainda não sabe o que é. O carro quase me atropelou, mas o que me atropelou de verdade foi o peso do que senti naquela noite. E quando cheguei em casa, com o coração batendo como se quisesse sair do peito, escutei minha música. Mas o que realmente precisei foi de um pedaço de mim, algo que não havia sido tocado, uma partitura de palavras que talvez me resgatasse.
E foi assim que nasceu Meias Sujas. Uma tentativa de limpar o que restou. De olhar para o que ainda estava ali, doendo, mas pulsando. Eu sabia que algo estava ali, a despeito da dor, a despeito da raiva. Algo que me lembrava que, ainda assim, eu tenho valor.
Não posso mudar o que aconteceu. Não posso curar os corações insensíveis dos outros. Mas posso, talvez, limpar um pouco o meu próprio.
E assim, com o peso do que me fizeram, escrevo. Porque, por mais que o rancor ainda me incomode, ele não vai me engolir. O que ficou molhado nas minhas meias, ainda assim, é meu. E isso, por mais doloroso que seja, ainda é uma parte de mim que aprendi a valorizar.



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