Eu seria aquela criança que seguiria o coelho branco sem hesitar, que tomaria chá com uma lebre maluca e usaria o chapéu extravagante de um chapeleiro excêntrico. Eu salvaria um peixe aprisionado em um pote de vidro, exploraria um castelo encantado e, certamente, não provaria a comida de um restaurante estranho sem a presença do atendente. Com certeza, usaria um relógio mágico ou teria padrinhos que realizassem desejos, e, claro, construiria uma montanha-russa no meu quintal. Talvez, eu me aventurasse por um guarda-roupa misterioso ou encontrasse um Totoro amigo em meio a uma floresta mágica. Eu faria pactos com bruxas, atravessaria florestas encantadas e jamais hesitaria em enfrentar o desconhecido.
A diferença entre mim e os personagens dessas histórias é que eu nunca voltaria para o mundo real. Eu não nasci para o comum; nasci para o extraordinário. Para o épico, para aventuras arrebatadoras e descobertas incríveis. Eu exploraria o centro da Terra ou participaria de um jogo que levasse minha casa até as estrelas. Enquanto outros correm da chuva, eu danço sob ela. Eu mergulho em tempestades e ainda me espanto ao me encontrar encharcado.
Eu sou quem encara um tsunami com olhos brilhando, encontrando beleza no caos. A pessoa que sonha com mundos mágicos cheios de elfos, fadas e sereias. Sou um romântico que enxerga o que muitos ignoram: a majestade de uma árvore robusta, a delicadeza de uma flor ao vento. Acredito que o amor triunfa sobre o ódio e que, talvez, um dia eu consiga fazer diferença no mundo – trazendo a ele um pouco de magia e bondade.
Adoraria lutar grandes batalhas, ser descendente de um Deus ou explorar mundos distópicos. Amo filmes de zumbi, mas, sejamos francos, provavelmente seria o primeiro a sucumbir. Ainda assim, na minha imaginação, eu seria um sobrevivente lendário.
E, ao finalizar este texto repleto de referências para aqueles que tiveram uma infância rica em histórias e fantasia, confesso: eu nunca senti que pertenço a este mundo. Sempre me senti diferente, e por muito tempo isso me causou sofrimento. Se você reparar, os personagens dessas histórias frequentemente desejam voltar ao mundo real porque sentem que não pertencem ao universo em que estão.
Eu, porém, sinto o oposto. É no mundo fictício que encontro meu lar. É lá que tudo faz sentido, onde a beleza, a magia e o extraordinário coexistem. E é por isso que, se eu tivesse escolha, jamais voltaria para o mundo real.



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